terça-feira, 29 de outubro de 2024

Jacarandá

 


Jacarandá

 

O jacarandá (Jacaranda mimosifolia), pertencente à família Bignoniaceae, é uma árvore de folha caduca e de crescimento médio a rápido, oriunda da América do Sul (Argentina, Bolívia e Brasil).

 

De acordo com Saraiva (2020), “Jacaranda, deriva do nome nativo brasileiro (que em guarani significa madeira dura”. Mimosifolia, do latim, significa -com folhas semelhantes às de uma mimosa.”

 

O jacarandá, ainda de acordo com o autor citado acima, foi introduzido em Portugal, entre 1811 e 1828, pelo botânico português Félix de Avelar Brotero, quando o mesmo era diretor do Jardim Botânico da Ajuda.

 

Tal como a maioria das plantas ornamentais, é possível que o jacarandá tenha chegado aos Açores no século XIX, pela mão de algum dos membros da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, sendo o maior entusiasta e o que mais espécies introduziu José do Canto.

 

Num catálogo das plantas existentes no seu jardim de Ponta Delgada, em 1856, José do Canto enumera três espécies do género Jacaranda, entre as quais a mimosifolia. Numa publicação posterior, José do Canto refere que entre maio de 1865 e setembro de 1867, foram plantadas algumas espécies do referido género.

 

No que diz respeito ao “grande rival” de José do Canto, António Borges, sabe-se que no jardim de Ponta Delgada existiam, em 1865, várias espécies de jacarandá, entre as quais, a mimosifolia.

 

Na atualidade, na ilha da São Miguel é possível encontrar jacarandás em vários espaços ajardinados e em quintais de algumas residências. De entre os locais onde é possível observar jacarandás, destacamos os seguintes: Jardim Padre Sena Freitas, Recreio da Escola Secundária das Laranjeiras, Rua de São Paulo e Rua Maria José Borges, no Jardim António Borges, em Ponta Delgada.

 

Digna de uma visita é a cidade do Funchal, onde os jacarandás dão o ar da sua graça às avenidas Arriaga e do Infante, entre outros locais, como por exemplo o Jardim Municipal do Funchal, a Rua João de Deus, o Parque de Santa Catarina, a Quinta Jardins do Lago e o Jardim de Santa Luzia.

 

O jacarandá, que em média atinge 12 m de altura, apresenta uma longevidade que vai dos 60 a100 anos.

 

O jacarandá apresenta um tronco pequeno, com casca escura. As folhas são compostas, bipinuladas, com cerca de 16 pares de pinas, cada uma com 25 a 30 pares de folíolos pequenos. As flores do jacarandá, que surgem nos meses de maio, junho e julho, reúnem-se em panículas piramidais e apresentam uma coloração lilás azulada. O fruto que permanece muito tempo na planta é uma cápsula lenhosa de forma elipsoide.

 

A madeira do jacarandá, de cor creme, é compacta e duradoira e emite um aroma agradável, sendo muito apreciada e usada em carpintaria e marcenaria e na construção de instrumentos musicais. Os seus frutos são usados com fins decorativos.

 

É muito fácil, a propagação do jacarandá por sementes, que devem ser postas na terra logo após a frutificação, mas também é possível, embora não seja fácil, por estacas de madeira macia.

 

30 de outubro de 2024

 

T. Braga

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Cedro-do-buçaco

 


Cedro-do-buçaco

 

O cedro-do-buçaco (também conhecido como cedro-do-bussaco), ou cedro-de-goa ou cipreste-do-buçaco (Hesperocyparis lusitanica (Mill.) Bartel) é uma espécie, pertencente à família Cupressaceae, que é originária duma região que vai do México às Honduras. Hoje, pode ser encontrado, noutros continentes para além do americano, como em África, Europa, Ásia e Oceânia.

 

Em Portugal continental, o cedro-do-buçaco pode ser observado em vários locais,  nomeadamente na Mata Nacional do Buçaco, em Coimbra, e, em Lisboa, no Jardim França Borges e na Quinta das Conchas.

 

O cedro-do-buçaco, que pode atingir 30 m de altura, é uma planta resinosa.de copa piramidal, sobretudo nas árvores jovens, o seu tronco é cilíndrico e a sua casca é castanho-avermelhada.

 

De folhagem persistente, segundo Saraiva (2020) apresenta dois tipos de folhas; “as folhas dos indivíduos jovens são aciculares; as dos indivíduos maduros escamiformes, imbricadas dispostas sobre os ramos, de modo tal que o par de folhas superior está disposto em posição cruzada em relação ao inferior, com 2 a 5 mm de comprimento, de um verde um pouco acinzentado até verde glauco”.

 

Tanto o nome comum como o científico desta espécie estão envoltos em alguma confusão porque a mesma não é um cedro, mas sim um cipreste, e não é nativa de Portugal, como terá pensado o botânico francês Joseph Pitton, de Tournefort, que, em 1698, a considerou como sendo autóctone da Serra do Buçaco daí a designação lusitânica.

 

O cedro-do-buçaco chegou à ilha de São Miguel em 1799, como prova um ofício do ministro e secretário de estado D. Rodrigo de Sousa Coutinho dirigido a Nicolau Maria Raposo, datado de 6 de dezembro daquele ano, de que abaixo se publica um extrato:

 

«Estimo muito que seu filho tenha feito huma boa sementeira das Arvores de que lhe remetti as sementes, e n’esta occasião receberá V. M.* para o mesmo fim huma nova porção de Semente do Cedro de Bussaco. Recommendo-lhe muito este objecto e espero que com o seu conhecido zelo por tudo o que é de utilidade publica, se propagarão n’essa Ilha estas plantações, de que para o futuro se podem., tirar grandes utilidades.»

 

O grande introdutor de espécies vegetais nos Açores, sobretudo ornamentais, José do Canto, também apreciou a espécie tendo-a introduzido no século XIX no seu Jardim em Ponta Delgada.

 

Hoje, para além da sua presença no Jardim José do Canto, em Ponta Delgada, é possível encontrar o cedro-do-buçaco noutros jardins e espaços ajardinados como o Jardim António Borges, em Ponta Delgada, ou o Parque Pedagógico Maria das Mercês, no Pico da Pedra.

 

O cedro-do-buçaco, para além do uso como planta ornamental, pode ser utilizado para formar barreiras para proteção dos efeitos nefastos do vento. Também pode ser usado em marcenaria, para a obtenção de lenha de boa qualidade e para a produção de celulose.

 

26 de outubro de 2024

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Sobreiro

 


Sobreiro

 

O sobreiro, sovereiro, chaparro ou sobro (Quercus suber L.) é uma árvore da família Fagaceae originária do sul da Europa e do norte de África.

 

O nome do género Quercus deriva do termo celta quercuez que significa bonita árvore e

o da espécie, suber, vem do latim suber que era o nome que naquela língua se dava à cortiça.

 

Nativo de Portugal continental, existe tanto a Norte como a Sul, nomeadamente no Alentejo, onde aparece como árvore isolada.

 

Em Portugal, há muitos sobreiros classificados como árvores monumentais, sendo o mais conhecido o sobreiro Assobiador que se encontra na aldeia de Águas de Moura, no concelho de Palmela, que é considerado o mais velho (estima-se que tem uma idade aproximada de 234 anos) e maior sobreiro do mundo (cerca de 30 m de diâmetro de copa e cerca de 17 m de altura) pelo Livro de Recordes do Guinness e foi eleito como Árvore Europeia de 2018.

 

Desconhece-se a data da chegada do primeiro sobreiro aos Açores. Sobre a sua presença no nosso arquipélago sabe-se que já existia na primavera de 1856 no Jardim José do Canto, em Ponta Delgada. 

 

Sobre a sua abundância, o regente agrícola Silvano Pereira, num texto intitulado “Principais plantas cultivadas e espontâneas nos Açores”, publicado em 1953, no Boletim da Comissão Reguladora do Arquipélago dos Açores, escreveu que era uma “árvore cultivada (rara).”

 

Na ilha de São Miguel, onde não existem muitos exemplares, a planta é usada com fins ornamentais, podendo ser observada no Jardim António Borges e no Jardim Botânico José do Canto, em Ponta Delgada, no Parque Terra Nostra, nas Furnas, no Quintal Etnográfico, na Ribeira Chã, e na Mata do Dr. Fraga, na Maia.

 

O sobreiro foi uma árvore protegida, desde muito cedo, datando de 1546 a proibição do seu corte e uso para o fabrico de carvão e das suas cinzas nas saboarias do Ribatejo. Dado os seus valores económicos e ecológicos, o sobreiro, por Resolução da Assembleia da República, datada de 22 de dezembro de 2011, foi declarado Árvore Nacional de Portugal.

 

O sobreiro é uma árvore de folha persistente, de copa mais larga do que alta, de crescimento lento e grande longevidade, distinguindo-se pela sua casca grossa gretada e rugosa, a cortiça, de que Portugal é o maior produtor mundial.

 

De grande valor ecológico, é resiliente ao fogo e abrigo e fonte de alimento para várias espécies animais, o sobreiro é também de grande importância económica não só pela cortiça que fornece, mas também pela sua madeira, que é usada em marcenaria, e pelas bolotas que eram usadas na alimentação de porcos e também consumidas. pelos humanos.

 

Na altura dos Descobrimentos, a madeira de sobreiro foi usada na construção naval, sobretudo nos cascos das naus e caravelas.

 

As folhas dos sobreiros são um pouco coriáceas, de forma ovado-lanceoladas e apresentam as margens ligeiramente dentadas. A sua página superior é glabra e a inferior apresenta pelos curtos acinzentados. As flores dos sobreiros são poucos notórias e surgem nos meses de abril, maio e junho. Os frutos, as bolotas, são glandes, ricas em amido, açucares e gorduras e têm a época de maturação de setembro a janeiro.

 

O sobreiro propaga-se muito bem por sementes. Segundo Saraiva (2020) “as bolotas perdem rapidamente a viabilidade (capacidade de germinação), pelo que devem ser semeadas tão cedo quanto possível, ou então devem ser estratificadas a temperaturas de 0 a 2ºC e plantadas na primavera seguinte.”

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Piteira

 


Piteira

 

A piteira, pita, agave ou babosa (Agave americana L.) é uma planta suculenta originária do México e de algumas regiões dos Estados Unidos da América que se encontra naturalizada nos Açores, podendo ser encontrada em Santa Maria, São Miguel, Flores, Faial, Pico, São Jorge e Graciosa.

 

Pertencente à família Asparagaceae, a piteira prefere zonas costeiras, podendo ser vista geralmente até aos 200 m de altitude. Na ilha de Santa Maria apresenta um comportamento invasor.

 

A piteira, que pode atingir 8 m de altura, apresenta folhas carnudas, em roseta, lanceoladas e espinhosas que, em média, podem atingir 2,5 m de comprimento, 30 cm de largura e 3 cm de espessura. As flores são amarelo-esverdeadas, surgindo nos meses de junho a agosto e os frutos são cápsulas com 6 cm de comprimento.

 

Vieira, Moura e Silva (2020) referem o uso da piteira como ornamental e medicinal. Segundo eles, a planta apresenta “propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, antimicrobianas, anticancerígenas, cardioprotetoras, antidiabéticas, analgésico e antialérgico”.

 

Sobre a utilização da piteira, o engenheiro agrónomo Arlindo Cabral, no texto “Sebes vivas ou abrigos, nos Açores – subsídios para o seu estudo”, publicado no Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, nº 17, relativo ao 1º semestre de 1953, escreveu o seguinte: “usada, por vezes, no litoral algarvio como sebe viva e em cômoros, também aparece nos Açores, mas mais a constituir vedações ou tapumes. Estaria indicada para sebe viva junto ao litoral, em terras de cultura, pois para pomar tem pouca altura.”

 

Nos Açores, a piteira foi usada na alimentação do gado e é utilizada como ornamental, sendo conhecida a sua presença em vários jardins, como o Jardim António Borges, em Ponta Delgada, ou a Mata do Dr. Fraga, na Maia.

 

De acordo com um texto publicado no jornal “O Agricultor Michaelense”, nº 2, relativo ao mês de fevereiro de 1848, pode-se ler que as suas folhas verdes e mais tenras na ilha de Santa Maria eram um suplemento dos pastos, sendo quase o único nos quatro meses de inverno. Depois de tirados os espinhos, as folhas são dadas aos animais que as apreciam muito, regalando-se “tanto, que lhes está continuamente a escorrer a baba pela boca, e não só se regalam senão que engordam desusadamente e fazem-se nédias e luzidias.”

 

Não se sabendo qual a data e quem introduziu a piteira nos Açores, no número referido do jornal da Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense, António Feliciano de Castilho apresentou uma proposta para que a planta fosse disseminada na ilha de São Miguel e não só, dada a sua utilização no fabrico de papel de elevada qualidade, tornando possível a criação de uma importante indústria que seria importante “quer pelo seu pecuniário, quer, e sobretudo, pelo influxo que a barateza do papel deverá exercer ao desenvolvimento da instrução.”

 

Castilho, no seu texto, enumera as qualidades do papel de piteira do seguinte modo:

 

“…sobreleva em consistencia, e iguala em alvura, ao do algodão, ao da folha de milho, ao da palha de arroz, e até ao do linho; serve maravilhosamente para a escrita, para a impressão, para a estamparia, para os fórros pintados das paredes, para tudo; e sáe por baixo preço, attendendo a que o vegetal da sua materia prima, contem em pequeno volume grande massa de fibra, e se cria sem trato até nos peores terrenos”.

 

Para além do já mencionado, no texto já referido de “O Agricultor Michaelense” há referência a outras utilizações da piteira, nomeadamente no fabrico de uma bebida, a pulca, e ao uso das suas fibras. Assim, “as fibras das folhas dão um fio d’ extrema rijeza, bem conhecido pelo nome de pita, utilizado não só nas obras de cordoaria, mas ainda em tecidos exquesitos, e outros lavores mui mimosos, de que podem servir de exemplos os primorosos artefactos obrados no Algarve, Madeira.”

 

18 de outubro de 2024

Teófilo Braga

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Bananeira

 


Bananeira

 

Neste texto faremos referência às bananeiras que consideramos mais comuns no nosso arquipélago, a bananeira-anã (Musa acuminata Colla) e a bananeira-de-prata (Musa x paradisiaca L.)

 

A bananeira (Musa spp.) é originária do Sudeste Asiático, sendo cultivada em regiões tropicais e subtropicais do mundo.

 

As bananeiras já existiam na região mediterrânica antes dos descobrimentos, tendo sido levadas pelos portugueses para as ilhas atlânticas africanas e para a costa ocidental africana ao sul da Gâmbia (Ferrão, 1999).

 

Na Madeira, a bananeira já era cultivada em 1552, vinda das Canárias ou de Cabo Verde e a sua introdução nos Açores terá ocorrido no século XV ou XVI, na chamada era dos descobrimentos.

 

Em 1884, ao descrever a flora e a fauna da Ilha Graciosa, António Borges do Canto Moniz escreveu o seguinte: “…Encontra-se na ilha esta excellente planta, e muito conveniente seria que se tratasse da sua vulgarização, porque além de ser de reconhecida utilidade ao homem, dá um aspecto muito particular á terra”.

 

Em 1952, o Eng.º Arlindo Cabral, no boletim nº 15 da CRCAA, sobre a Fajã das Almas escreveu que era vocacionada para a produção de bananas e que “a bananeira vegeta e frutifica muito bem no tracto de terreno, fundo, ligeiramente inclinado, portanto exposto à incidência dos raios solares e protegidos dos ventos do quadrante norte…”

 

A bananeira multiplica-se por divisão dos rebentos que nascem junto à base. Em Vila Franca do Campo é tradição fazer a plantação de bananeiras no mês de maio.

 

A bananeira é uma planta herbácea, com folhas muito grandes de limbo alongado e flores, que surgem ao longo de todo o ano, encontram-se em recetáculos de cor violeta. O seu fruto, carnudo e indeiscente, é muito rico em vitaminas e açúcares o que o torna um excelente alimento.

 

Feijão (1986), depois de mencionar que os frutos são ricos em vitaminas A, B1, B2, C, D e E” e que “são muito alimentícios”, apresentou a forma como se faz “Licor de Banana”. Assim, segundo ele: “ferver a polpa de três bananas num litro de água; adicionar meio copo de álcool e 50 g de açúcar; filtrar.”

 

Vieira, Moura e Silva (2020), para além de referirem os usos ornamental e alimentar, mencionam que a banana tem “propriedades antifúngicas, antibióticas, enzimáticas e revigorantes” e que “a casca usada diretamente serve para hidratar a pele, prevenir as rugas, eliminar hematomas e acelerar a cicatrização de feridas.”

 

Augusto Gomes (1993) menciona o uso, para tratar as calosidades, da “raspa da parte interior da casca da banana.”

 

Em 1992, nas Calhetas, concelho da Ribeira Grande, extraía-se “o sumo da folha da bananeira” e esfregava-se “na ferida” para tratar a erisipela.

 

 

Bibliografia

 

Ferrão, J. (1999). A aventura das plantas e os Descobrimentos Portugueses. Lisboa, Instituto de Investigação Tropical e Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 75 pp.

 

Feijão, R. (1986). Medicina pelas plantas. Lisboa, Progresso editora. 334 pp.

 

Gomes, A, (1993). A alma da nossa gente: repositório de usos e costumes da Ilha Terceira, Açores. Angra do Heroísmo, Direção Regional dos Assuntos Culturais. 498 pp.

Moniz, A. (1884). Ilha Graciosa (Açores)- Descripção Histórica e Topographica. Angra do Heroísmo, Imprensa da Junta Geral.


Vieira, V., Moura, M., Silva, L. (2020). Flora terrestre dos Açores. Ponta Delgada, Letras Lavadas. 356 pp.