Catalpa bignonioides Walter
Ribeira Grande
28 de agosto de 2024
Amoreira-do-papel
Numa
visita que fiz à casa de uma pessoa amiga, localizada na Fajã de Cima, vi pela
primeira vez, no dia 2 de julho de 2020, uma
planta com folhas com uns recortes estranhos.
Com
recurso ao meu amigo Raimundo Quintal, um madeirense que, desde 1983, tem
estudado a fitodiversidade dos parques e jardins do nosso arquipélago,
nomeadamente os da ilha de São Miguel, fiquei a saber que a planta era uma
amoreira-da-china, também conhecida por amoreira-do-papel (Broussonetia papyrifera (L.) L’Hér. ex Vent.).
A amoreira-do-papel é uma
árvore de folha caduca e dioica pertencente à família Moraceae, nativa da China, Japão, Coreia, Taiwan e Polinésia. Com um crescimento rápido, atinge
uma altura que varia entre os 6 e os 15 metros.
A amoreira-do-papel, cujo nome específico está associado ao facto de a
fibra da casca ser usada na produção de papel de grande qualidade, é utilizada
em várias partes do mundo essencialmente como planta ornamental.
De acordo com algumas fontes, os seus
frutos são muito agradáveis ao paladar, podendo ser comidos frescos ou em
compotas, tendo propriedades diuréticas. As suas folhas, para além de induzirem
a transpiração e evitarem a diarreia, são usadas como cataplasma para combater
problemas de pele e associados a picadas de insetos.
Na ilha de Fiji a casca da
amoreira-do-papel é usada para o fabrico de tecidos que são usados em várias
cerimónias tradicionais, que vão do nascimento ao casamento.
Identificada a planta, o
passo seguinte foi tentar saber a sua abundância na ilha de São Miguel,
recorrendo à bibliografia, a pesquisas no campo e ouvindo pessoas amigas que
conhecem bem as plantas da nossa terra.
Desconhecendo-se a data
da sua introdução na ilha de São Miguel, apenas podemos afirmar que a
amoreira-do-papel já era conhecida em São Miguel, em 1851, data em que “O
Agricultor Micaelesnse”, órgão mensal da Sociedade Promotora da Agricultura
Micaelense, publicou um texto intitulado “Broussonetia”. Nele, a dada passo
pode-se ler o seguinte: “é uma elegante árvore, da qual crescem prosperamente
n’esta Ilha alguns indivíduos”.
O texto referido no
parágrafo anterior, para além de dar uma explicação sobre o modo como era
produzido o papel a partir da casca da amoreira-do-papel, termina com um
(quase) apelo à sua plantação na ilha, do seguinte modo: “Quantas árvores que
não tem serventia alguma, não roubam o lugar, que poderá ser ocupado por esta,
e inúmeras outras árvores de útil préstimo!”
Desconhecendo-se o nome
da pessoa que a introduziu na ilha de São Miguel, tudo leva a crer que terá
sido um dos membros da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. Também se
sabe que a amoreira-do-papel era uma das plantas existentes no Jardim de José
do Canto, em Ponta Delgada, na primavera de 1856.
No século passado, a
amoreira-do-papel não devia ser muita rara nos Açores, pois o Regente Agrícola
Silvano Pereira incluiu-a numa listagem das “Principais Plantas Cultivadas e
Espontâneas nos Açores”, publicada no Boletim da Comissão Reguladora dos
Cereais do Arquipélago dos Açores, nº 18, de 1953.
Até ao momento, nenhum
dos meus conhecidos indicou a presença da amoreira-do-papel na nossa ilha, pelo
que atualmente, para além da árvore já mencionada, tenho observado duas no Pico
da Pedra, uma nas Capelas e duas na Ribeira Nova, na Ribeira Seca de Vila
Franca do Campo.
13 de julho de 2024
Em defesa das plantas, em defesa da Vida
No
passado dia 20 de maio, comemorou-se o Dia Internacional da Abelha, um dos
polinizadores de grande importância para a conservação da biodiversidade e para
a agricultura. A propósito, o mundialmente famoso físico Albert Einstein
escreveu o seguinte: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a
humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há
polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais,
não haverá raça humana.”
Entre as
principais ameaças às abelhas e restantes polinizadores destacamos a degradação
dos habitats naturais, a agricultura intensivo e o uso de herbicidas.
Na nossa
freguesia e em quase toda a ilha, os espaços verdes precisam de ter mais flores
e menos relva, necessitam de serem preenchidos com espécies vegetais melíferas
e nos terrenos agrícolas é urgente serem deixados junto às suas divisórias,
mesmo em bandas estreitas, plantas silvestres. Não pode acontecer o que tenho
observado, isto é, as plantas existentes nas bandas referidas são queimadas com
herbicidas que são prejudiciais às abelhas e aos outros seres vivos.
Acredito que é
por ignorância ou por desinformação que não se valoriza o nosso património
natural e este texto é apenas um modesto contributo para o conhecimento do
mundo que nos rodeia.
Para um melhor
conhecimento da flora do Pico da Pedra, decidi dar a conhecer as plantas
existentes nos muros de pedra existentes na Rua Capitão Manuel Cordeiro (1º e
2ª partes), fazendo um primeiro inventário.
No
dia 22 de abril, Dia da Terra, identifiquei 23 espécies que podem ter usos
diversos, para além de serem procuradas pelas abelhas, como a fura-capa (Bidens
pilosa), a Cymbalaria
muralis, e o dente-de-leão (Taraxacum
officinale).
Usadas na medicina popular encontrei,
entre outras, as seguintes plantas: fura-capa, erva-de-são-roberto (Geranium
robertianum), Perpétua-silvestre (Helichrysum luteoalbum), fava-da-cova (Parietaria judaica), dente-de-leão,
coucelos (Umbilicus rupestres), língua-de-vaca (Plantago lanceolata) e urtiga (Urtica membranaceae).
Com
possível uso (ou mesmo usadas) na alimentação humana ou de animais encontrei as
seguintes espécies: alhinhos (Allium triquetrum),
tomate-de-capucho (Physalis peruviana), chagas (Tropaeolun
majus), urtiga e serralha (Sonchus oleraceus), esta última muito
usada na alimentação de coelhos.
Para quem quiser aprofundar o assunto, para além do recurso à
internet, aconselho a consulta dos seguintes livros.
- As Plantas na Medicina Popular dos Açores, da minha
autoria, editado em 2023, pelas Letras Lavadas, edições;
- Algumas plantas medicinais dos Açores, de Yolanda
Corsépius, editada pela autora em 1997;
- Flora Terrestre dos Açores, de Virgílio Vieira, Mónica
Moura e Luís Silva, editado em 2020, pelas letras Lavadas, edições;
- Ervas que se comem-silvestres e
saborosas, de Fernanda Botelho, editado em 2022, pela Dinalivro.
Pico
da Pedra, 21 de maio de 2024
Teófilo
Braga
(A
VOZ POPULAR, nº 208, junho de 2024)
Leucena
Leucena, Ipil-ipil ou aroma-branco (Leucaena leucocefala (Lam.) De
Wit) é uma espécie, da família Fabaceae, oriunda da América Central.
Atualmente está espalhada por vários países do mundo, figurando na lista
das piores plantas com comportamento invasor, causando prejuízo à
biodiversidade. Na ilha da Madeira, onde foi introduzida como ornamental e
possivelmente como forrageira, no início do século XIX, encontra-se
naturalizada em algumas zonas, sobretudo próximas do litoral.
É um arbusto ou árvore perene que em condições ideais de clima e solo pode
atingir 20 m de altura. As folhas são bipenadas, as flores são brancas,
agrupadas em capítulos globulares e os frutos são vagens planas, contendo 15 a
30 sementes.
Não é possível afirmar a data exata da sua introdução nos Açores. Em São
Miguel, sabe-se que uma das chegadas terá ocorrido no final da década de 80 ou
no início da de 90 do século XX.
Numa comunicação sobre o aproveitamento das energias renováveis nos Açores,
apresentada por Francisco Botelho, da EDA, nas Primeiras Jornadas de Proteção
do Meio Ambiente”, realizadas em 1988, em Angra do Heroísmo, afirma-se o
seguinte:
“Das possibilidades consideradas que incluem também o eucalipto e a acácia, mostra-se com especial interesse
a Leucaena (Ipil-Ipil), árvore frondosa e de pequeno porte que, para além de
apresentar um dos mais rápidos crescimentos, se não o mais rápido conhecido
(cerca de 4 metros em seis meses, pelo menos em zonas de floresta tropical) e
bom poder calorífico, tem ainda entre outras vantagens, poder de fixação de
nitrogénio no solo e folhagem rica em proteínas,
permitindo o seu aproveitamento para alimentação de animais, bem como
características adequadas para fixação de taludes. Está actualmente em curso um
estudo acerca da sua adaptação às características climáticas da nossa Região,
encontrando-se em crescimento exemplares de alguns tipos de Leucaena, de
sementes originárias o Hawai.”
Em 1989, tivemos a oportunidade de observar nos viveiros dos Serviços
Florestais, nas Furnas, pequenas plantas obtidas a partir de sementes vindas
dos EUA para a EDA que estava a investigar a possibilidade do seu
aproveitamento para a produção de energia elétrica a partir da queima da sua
madeira.
Na altura, sabendo que a espécie no Havai e no Japão era uma terrível
ameaça à flora nativa, os Amigos dos Açores manifestaram publicamente a sua
preocupação.
A inquietação dos Amigos dos Açores não caiu em saco roto, pois, a 11 de
março de 1992, o deputado regional do PS, Victor Ramos, em requerimento enviado
ao Secretário Regional da Agricultura e Pescas, solicitou uma resposta à
seguinte questão: “Que motivações e que estudos levaram à introdução da
referida espécie nos Açores?”
A resposta, que deu entrada na ALRA a 21 de julho de 1992, foi assinada por
Rui Nina da Silva Lopes, secretário-geral da Presidência do Governo e foge à
questão levantada, isto é, apenas menciona que “não foram efectuadas quaisquer
plantações de leucaena na ilha de S. Miguel”
Mas, como em quase tudo nesta vida, nem tudo é negativo na leucaena, pois
há usos que não podem ser esquecidos. Assim, ela já foi considerada como a
“árvore milagre”, sobretudo para alguns países do chamado Terceiro Mundo, onde
a desflorestação e o empobrecimento dos solos atinge grandes dimensões.
A madeira de leucaena pode ser usada como combustível, na alimentação e
aquecimento e em centrais de produção de eletricidade.
As folhas da leucaena podem ser usadas na alimentação humana e na do gado.
Na alimentação humana podem ser utilizadas em sopas e em saladas. As folhas são
também muito apreciadas pelo gado, nomeadamente bovinos, suínos e caprinos,
podendo ser usadas também em silagens. As sementes de leucena, depois de
torradas e moídas podem ser usadas como substituto do café.
Plantada em fileiras alternadas com outras espécies a leucaena pode
estimular o crescimento daquelas.
A leucena é também usada em várias regiões do mundo como planta ornamental,
o que já acontece em Ponta Delgada, num dos seus grandes jardins.
2 de julho de 2024
Árvore-da-borracha-australiana
A árvore-da-borracha-australiana, figueira-da-austrália ou
figueira-estranguladora (Ficus macrophylla Desf.ex Pers.) é uma espécie, da
família Moraceae, originária das florestas chuvosas da costa leste da Austrália.
A árvore-da-borracha-australiana pode atingir mais de 30 m de altura e
possui um tronco acinzentado. “Do tronco principal saem junto ao solo “raízes
tabulares” como que escoras que melhor prendem a árvore ao chão e que atingem
grande desenvolvimento” (Saraiva, 2020).
As suas folhas são grandes, com cerca de 10 a 25 cm de comprimento e cerca
de 7 a 12 cm de largura, coriáceas que são verde-escuras na página superior e ferrugíneas
na página inferior.
Os seus frutos, os figos, que são pequenos, são oblongo-esféricos e atingem
de 2 a 2,5 cm de diâmetro. À medida que amadurecem passam da cor verde para púrpura.
A árvore-da-borracha-australiana terá chegado a São
Miguel em meados do século XIX, tendo os exemplares existentes no Jardim José
do Canto uma idade aproximada de 170 anos, pois a
sua presença naquele jardim está referenciada na “Enumeração das principais
plantas existentes no meu Jardim de Sta. Anna na primavera de 1856”, elaborada
por José do Canto.
O magnífico exemplar existente no Jardim António Borges, que terá uma idade
próxima dos 160 anos, foi classificado por Despacho publicado no
Diário do Governo, II Série, nº.238, de 14 de outubro de 1970.
De
acordo com Albergaria (2021), “o exemplar do Jardim António Borges possuía em
2018, 22,6 m de altura e 24 m de diâmetro de copa. Apesar das grandes dimensões
deste exemplar a espécie é mencionada pela primeira vez no Jardim em 1960 no
caderno manuscrito do Professor João do Amaral Franco.”
O facto da espécie apenas ter sido referida em 1960 apenas significa que a
mesma esteve durante muitos anos mal classificada, como terá acontecido no
“Catálogo das Plantas” datado de 1865 ou no interessante livro, “Parques e
Jardins dos Açores” de Isabel Albergaria, em que a espécie está identificada
como Ficus elastica.
A espécie, segundo Saraiva (2020), poderá ter sido introduzida em Portugal
continental por Edmond Goeze oferecida por José do Canto. O maior exemplar
existente no país, ainda de acordo com o mesmo autor, encontra-se, em Coimbra,
no Jardim Botânico da Universidade, onde trabalhou Goeze, e possui 11,5 m de
PAP (Perímetro (do tronco) à Altura do Peito) e 32 m de DC (Diâmetro da Copa)
Na ilha de São Miguel existem exemplares notáveis da
árvore-da-borracha-australiana no Jardim José do Canto,
no Jardim do Palácio de Santana e no Jardim António Borges. O geógrafo madeirense Raimundo
Quintal no texto “Árvores monumentais nos jardins, parques e matas de São
Miguel – proposta de classificação”, publicado em 2019, sugeriu que que se mantivesse
a classificação do exemplar existente no Jardim António Borges, que fossem
classificados dois exemplares existentes no Jardim José do Canto e um exemplar
existente no Jardim do Palácio de Santana.
Esta espécie que tem uma longevidade superior a 150 anos, é muito apreciada
pelos visitantes dos jardins onde se encontra pelo espetáculo único das suas
raízes tabulares que também fazem com que esta bonita planta ornamental não
deva ser plantada junto de edifícios, sendo adequada apenas para parques e
jardins e outros locais onde as suas raízes tenham espaço suficiente para se
desenvolverem livremente.
Do mesmo género, para além das espécies já referidas (Ficus macrophylla
e Ficus elastica) é possível encontrar na nossa ilha, entre outras, a Ficus
carica (figueira), cultivada como árvore de fruto, e a ornamental
figueira-da-índia (Ficus benjamina) que pode ser observada no Jardim
António Borges, no Jardim José do Canto e no Jardim do Palácio de Santana.
Faia-europeia
A faia-europeia ou faia (Fagus sylvatica L.) é uma espécie, da família Fagaceae, oriunda de uma vasta área da Europa que abrange o norte de Espanha, França, sul de Inglaterra e sul dos países escandinavos, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Polónia, Itália e Países Balcânicos.
O nome científico Fagus, conserva a denominação latina que, por sua vez, deriva do grego fagos ou phagos, que significa comilão, uma referência ao facto dos frutos serem muito nutritivos e sylvatica, que indica dos bosques ou selvagem.
A faia-europeia á uma árvore caducifólia, de copa ovada ou arredondada que pode atingir 30 m de altura ou mais. O seu tronco apresenta casca lisa e cinzenta. As folhas, de margens ondeadas, são ovadas ou elíticas, apresentando nas margens uma penugem. As flores, tanto as masculinas como as femininas, que são pouco notórias, estão dispostas em amentos. Os frutos (aquénios) são normalmente constituídos por duas nozes lustrosas de forma triangular.
Em Portugal continental, a faia é uma espécie exótica que tem sido plantada pelos Serviços Florestais, sobretudo na Serra da Estrela, no perímetro florestal de Manteigas, e nalgumas serras do Norte. Também é cultivada como espécie ornamental, em parques e jardins, existindo exemplares notáveis em Ponte de Lima, Lamego, Porto (no Parque de Serralves), em Lisboa e em Sintra.
Sobre a presença da faia-europeia na ilha de São Miguel, há um excelente texto, intitulado “Matas”, publicado no nº 21, de 1849, de “O Agricultor Michaelense”.
Para alem da menção à utilidade da planta e do modo de propagação da mesma, que era por semente, sobre a sua chegada a São Miguel, podemos ler o seguinte: “Sabemos que nos últimos sete anos várias pessoas fizeram sementeiras de Faia, importada a sua semente de Inglaterra.”
Mas tudo leva a crer que a presença da faia-europeia é mais antiga, pois no mesmo texto é afirmado que:
“No logar das Socas, em prédio pertencente ao Sr. Guilherme Scholtz há um grupo de magestosas faias; ni sitio do Botelho, na auinta do Sr. Barão de Fonte Bella, há tambémuma avenida de belas faias, na servidão que dirige à cascata; e finalmente na Grimaneza, n’uma matta que pertence ao fallecido Sr. Annio José de Vasconcellos, campeam á margem da estrada, e como que pregando o exemplo, duas frondosíssimas árvores.”
Na atualidade, na ilha de São Miguel, a faia-europeia é usada como planta ornamental, podendo ser observada no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim do Pico Salomão, no Parque Terra Nostra, no Viveiro Florestal das Furnas e na Mata-Jardim José do Canto-Lagoa das Furnas.
A madeira da faia, branca ou acastanhada, por vezes com tons rosados, é bonita, sendo por isso muito usada em carpintaria e marcenaria, para o fabrico de elementos torneados, mobiliários e instrumentos musicais. Também pode ser usada para pasta de papel e como combustível, já que apresenta uma elevada capacidade calorífica.
Segundo Pio Font Quer (1988) o carvão vegetal proveniente da madeira de faia-europeia é:
“usado em Medicina sempre que convém absorver gases pútridos, sobretudo em fermentações intestinais de tipo anormal, no chamado meteorismo, nas disenterias flatulentas e em todos os casos em que não só é aconselhável desinfetar moderadamente, mas também absorver gases produzidos em excesso. Na higiene oral o mesmo carvão macio e ligeiramente desinfetante constitui um excelente dentífrico. Também se usa em certos casos de envenenamento, como primeira providência para parar o mal.”
O mesmo autor refere que por destilação seca da madeira se obtém o breu de faia que foi muito usado para combater a tuberculose.
https://sig.serralves.pt/pt/flora/detalhe.php?id=1010
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fagus_sylvatica
Teófilo Braga
A Ginjeira-do-mato, ginjeira-brava ou ginja (Prunus azorica (Hort. ex Mouil.) Rivas Mart.) é uma espécie endémica dos
Açores que pertencente à família Rosaceae. Não existe em Santa Maria, Graciosa
e Corvo.
Vieira, Moura e Silva
(2020) referem que “estudos recentes
sugerem que não existe suficiente diferenciação para ser considerada uma
espécie distinta de Prunus, mas sim a subespécie Prunus lusitânica
subsp. azorica (Mouill.) Franco.”
A
ginjeira-do-mato é uma árvore perenifólia que raramente ultrapassa os 6 metros
de altura, com folhas de forma oval-elíptica, glabras e de cor verde-escuro. As
suas flores, que se apresentam em cachos, são brancas e podem ser vistas nos
meses de março, abril, maio, junho e julho. Os seus frutos são carnudos,
ovoides e pretos quando maduros.
No
estado selvagem é possível encontrar a ginja-do-mato, em florestas nativas
normalmente entre os 500 m e os 700 m de altitude. Na ilha de São Miguel, para
a observar aconselhamos uma visita à Serra da Tronqueira, no Nordeste.
Por
pertencer à flora primitiva dos Açores a ginjeira-do-mato é referida, por
várias vezes, por Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra, ao descrever várias
ilhas do nosso arquipélago. Numa das referências àquela espécie Gaspar
Frutuoso, no Capítulo I, do Livro IV, escreveu o seguinte:
“Chegando aqui às ilhas os novos
descobridores, tomaram terra no lugar, onde agora se chama a Povoação Velha,
pela que ali fizeram depois, como adiante contarei, e desembarcando antre duas
frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, antre rochas e terras altas,
todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias, e
outras diversas árvores, deram todos, com muito contentamento e festa, graças a
Deus, não as que por tão alta mercê se lhe deviam, senão as que podem dar uns
corações contentes como bem tão grande que tinham presente, desejado por muitos
dias e com tanto trabalho e enfadamento de importunas viagens por tantas vezes
buscado.”
No
relatório “A agricultura no distrito da Horta (subsídios para o seu estudo)”,
citado por Carreiro da Costa (1989), sobre a presença de várias espécies
vegetais na ilha do Pico, os autores, relativamente à ginjeira-do- mato
escrevem: a sua “madeira [é] muito apreciada para obras de entalhamento e casca
rica duma substância corante com que os pescadores tingem as redes”.
Ramos
(1871) já havia escrito algo semelhante ao relatório citado por Carreiro da
Costa. Segundo ele, “a madeira é muito apreciada pelos entalhadores; da sua
casca fazem grande uso os curtidores, e também com ella tingem os pescadores as
suas redes.”
Vieira, Moura e Silva (2020) escrevem que os frutos são
comestíveis e são uma importante fonte de alimentação para o priolo, ave
endémica dos Açores.
De
acordo com o Dr. Francisco Carreiro da Costa, foi à ginjeira do mato que os
açorianos foram buscar o nome para várias localidades, como por exemplo Ginjal,
em São Miguel e na Terceira, e Canada da Ginja, em São Jorge.
Hoje,
a ginjeira-do-mato é muito rara e praticamente deixou de ter qualquer uso, para
além do ornamental. Assim, ainda em número muito reduzido, já se podem encontrar
alguns exemplares em parques e jardins públicos e privados.
Quem quiser observar a
ginjeira-do-mato, fora do seu ambiente natural, pode fazê-lo no Jardim da
Universidade, no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim Botânico José do
Canto, no Parque Urbano, na Quinta da Torre-Capelas, na Quinta-Jardim da
Ribeira Nova- Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, no Parque Terra Nostra e na
Mata-Jardim José do Canto-Furnas.
Teófilo
Braga