sexta-feira, 12 de julho de 2024

Amoreira-do-papel

 


Amoreira-do-papel

 

Numa visita que fiz à casa de uma pessoa amiga, localizada na Fajã de Cima, vi pela primeira vez, no dia 2 de julho de 2020, uma planta com folhas com uns recortes estranhos.

 

Com recurso ao meu amigo Raimundo Quintal, um madeirense que, desde 1983, tem estudado a fitodiversidade dos parques e jardins do nosso arquipélago, nomeadamente os da ilha de São Miguel, fiquei a saber que a planta era uma amoreira-da-china, também conhecida por amoreira-do-papel (Broussonetia papyrifera (L.) L’Hér. ex Vent.).

 

A amoreira-do-papel é uma árvore de folha caduca e dioica pertencente à família Moraceae, nativa da China, Japão, Coreia, Taiwan e Polinésia. Com um crescimento rápido, atinge uma altura que varia entre os 6 e os 15 metros.

 

A amoreira-do-papel, cujo nome específico está associado ao facto de a fibra da casca ser usada na produção de papel de grande qualidade, é utilizada em várias partes do mundo essencialmente como planta ornamental.

 

De acordo com algumas fontes, os seus frutos são muito agradáveis ao paladar, podendo ser comidos frescos ou em compotas, tendo propriedades diuréticas. As suas folhas, para além de induzirem a transpiração e evitarem a diarreia, são usadas como cataplasma para combater problemas de pele e associados a picadas de insetos.

 

Na ilha de Fiji a casca da amoreira-do-papel é usada para o fabrico de tecidos que são usados em várias cerimónias tradicionais, que vão do nascimento ao casamento.

 

Identificada a planta, o passo seguinte foi tentar saber a sua abundância na ilha de São Miguel, recorrendo à bibliografia, a pesquisas no campo e ouvindo pessoas amigas que conhecem bem as plantas da nossa terra.

 

Desconhecendo-se a data da sua introdução na ilha de São Miguel, apenas podemos afirmar que a amoreira-do-papel já era conhecida em São Miguel, em 1851, data em que “O Agricultor Micaelesnse”, órgão mensal da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, publicou um texto intitulado “Broussonetia”. Nele, a dada passo pode-se ler o seguinte: “é uma elegante árvore, da qual crescem prosperamente n’esta Ilha alguns indivíduos”.

 

O texto referido no parágrafo anterior, para além de dar uma explicação sobre o modo como era produzido o papel a partir da casca da amoreira-do-papel, termina com um (quase) apelo à sua plantação na ilha, do seguinte modo: “Quantas árvores que não tem serventia alguma, não roubam o lugar, que poderá ser ocupado por esta, e inúmeras outras árvores de útil préstimo!”

 

Desconhecendo-se o nome da pessoa que a introduziu na ilha de São Miguel, tudo leva a crer que terá sido um dos membros da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense. Também se sabe que a amoreira-do-papel era uma das plantas existentes no Jardim de José do Canto, em Ponta Delgada, na primavera de 1856.

 

No século passado, a amoreira-do-papel não devia ser muita rara nos Açores, pois o Regente Agrícola Silvano Pereira incluiu-a numa listagem das “Principais Plantas Cultivadas e Espontâneas nos Açores”, publicada no Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, nº 18, de 1953.

 

Até ao momento, nenhum dos meus conhecidos indicou a presença da amoreira-do-papel na nossa ilha, pelo que atualmente, para além da árvore já mencionada, tenho observado duas no Pico da Pedra, uma nas Capelas e duas na Ribeira Nova, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.

 

13 de julho de 2024

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Em defesa das plantas, em defesa da Vida

 




Em defesa das plantas, em defesa da Vida

 

No passado dia 20 de maio, comemorou-se o Dia Internacional da Abelha, um dos polinizadores de grande importância para a conservação da biodiversidade e para a agricultura. A propósito, o mundialmente famoso físico Albert Einstein escreveu o seguinte: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.”

 

Entre as principais ameaças às abelhas e restantes polinizadores destacamos a degradação dos habitats naturais, a agricultura intensivo e o uso de herbicidas.

Na nossa freguesia e em quase toda a ilha, os espaços verdes precisam de ter mais flores e menos relva, necessitam de serem preenchidos com espécies vegetais melíferas e nos terrenos agrícolas é urgente serem deixados junto às suas divisórias, mesmo em bandas estreitas, plantas silvestres. Não pode acontecer o que tenho observado, isto é, as plantas existentes nas bandas referidas são queimadas com herbicidas que são prejudiciais às abelhas e aos outros seres vivos.

Acredito que é por ignorância ou por desinformação que não se valoriza o nosso património natural e este texto é apenas um modesto contributo para o conhecimento do mundo que nos rodeia.

Para um melhor conhecimento da flora do Pico da Pedra, decidi dar a conhecer as plantas existentes nos muros de pedra existentes na Rua Capitão Manuel Cordeiro (1º e 2ª partes), fazendo um primeiro inventário.

No dia 22 de abril, Dia da Terra, identifiquei 23 espécies que podem ter usos diversos, para além de serem procuradas pelas abelhas, como a fura-capa (Bidens pilosa), a Cymbalaria muralis, e o dente-de-leão (Taraxacum officinale).

 

Usadas na medicina popular encontrei, entre outras, as seguintes plantas: fura-capa, erva-de-são-roberto (Geranium robertianum), Perpétua-silvestre (Helichrysum luteoalbum), fava-da-cova (Parietaria judaica), dente-de-leão, coucelos (Umbilicus rupestres), língua-de-vaca (Plantago lanceolata) e urtiga (Urtica membranaceae).

 

Com possível uso (ou mesmo usadas) na alimentação humana ou de animais encontrei as seguintes espécies: alhinhos (Allium triquetrum), tomate-de-capucho (Physalis peruviana), chagas (Tropaeolun majus), urtiga e serralha (Sonchus oleraceus), esta última muito usada na alimentação de coelhos.

 

Para quem quiser aprofundar o assunto, para além do recurso à internet, aconselho a consulta dos seguintes livros.

- As Plantas na Medicina Popular dos Açores, da minha autoria, editado em 2023, pelas Letras Lavadas, edições;

- Algumas plantas medicinais dos Açores, de Yolanda Corsépius, editada pela autora em 1997;

- Flora Terrestre dos Açores, de Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva, editado em 2020, pelas letras Lavadas, edições;

- Ervas que se comem-silvestres e saborosas, de Fernanda Botelho, editado em 2022, pela Dinalivro.

 

Pico da Pedra, 21 de maio de 2024

 

Teófilo Braga

(A VOZ POPULAR, nº 208, junho de 2024)

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Leucena

 


Leucena

 

Leucena, Ipil-ipil ou aroma-branco (Leucaena leucocefala (Lam.) De Wit) é uma espécie, da família Fabaceae, oriunda da América Central.

 

Atualmente está espalhada por vários países do mundo, figurando na lista das piores plantas com comportamento invasor, causando prejuízo à biodiversidade. Na ilha da Madeira, onde foi introduzida como ornamental e possivelmente como forrageira, no início do século XIX, encontra-se naturalizada em algumas zonas, sobretudo próximas do litoral.

 

É um arbusto ou árvore perene que em condições ideais de clima e solo pode atingir 20 m de altura. As folhas são bipenadas, as flores são brancas, agrupadas em capítulos globulares e os frutos são vagens planas, contendo 15 a 30 sementes.

 

Não é possível afirmar a data exata da sua introdução nos Açores. Em São Miguel, sabe-se que uma das chegadas terá ocorrido no final da década de 80 ou no início da de 90 do século XX.

 

Numa comunicação sobre o aproveitamento das energias renováveis nos Açores, apresentada por Francisco Botelho, da EDA, nas Primeiras Jornadas de Proteção do Meio Ambiente”, realizadas em 1988, em Angra do Heroísmo, afirma-se o seguinte:

 

“Das possibilidades consideradas que incluem também o eucalipto  e a acácia, mostra-se com especial interesse a Leucaena (Ipil-Ipil), árvore frondosa e de pequeno porte que, para além de apresentar um dos mais rápidos crescimentos, se não o mais rápido conhecido (cerca de 4 metros em seis meses, pelo menos em zonas de floresta tropical) e bom poder calorífico, tem ainda entre outras vantagens, poder de fixação de nitrogénio  no solo e folhagem rica em proteínas, permitindo o seu aproveitamento para alimentação de animais, bem como características adequadas para fixação de taludes. Está actualmente em curso um estudo acerca da sua adaptação às características climáticas da nossa Região, encontrando-se em crescimento exemplares de alguns tipos de Leucaena, de sementes originárias o Hawai.”

 

Em 1989, tivemos a oportunidade de observar nos viveiros dos Serviços Florestais, nas Furnas, pequenas plantas obtidas a partir de sementes vindas dos EUA para a EDA que estava a investigar a possibilidade do seu aproveitamento para a produção de energia elétrica a partir da queima da sua madeira.

 

Na altura, sabendo que a espécie no Havai e no Japão era uma terrível ameaça à flora nativa, os Amigos dos Açores manifestaram publicamente a sua preocupação.

 

A inquietação dos Amigos dos Açores não caiu em saco roto, pois, a 11 de março de 1992, o deputado regional do PS, Victor Ramos, em requerimento enviado ao Secretário Regional da Agricultura e Pescas, solicitou uma resposta à seguinte questão: “Que motivações e que estudos levaram à introdução da referida espécie nos Açores?”

 

A resposta, que deu entrada na ALRA a 21 de julho de 1992, foi assinada por Rui Nina da Silva Lopes, secretário-geral da Presidência do Governo e foge à questão levantada, isto é, apenas menciona que “não foram efectuadas quaisquer plantações de leucaena na ilha de S. Miguel”

 

Mas, como em quase tudo nesta vida, nem tudo é negativo na leucaena, pois há usos que não podem ser esquecidos. Assim, ela já foi considerada como a “árvore milagre”, sobretudo para alguns países do chamado Terceiro Mundo, onde a desflorestação e o empobrecimento dos solos atinge grandes dimensões.

 

A madeira de leucaena pode ser usada como combustível, na alimentação e aquecimento e em centrais de produção de eletricidade.

 

As folhas da leucaena podem ser usadas na alimentação humana e na do gado. Na alimentação humana podem ser utilizadas em sopas e em saladas. As folhas são também muito apreciadas pelo gado, nomeadamente bovinos, suínos e caprinos, podendo ser usadas também em silagens. As sementes de leucena, depois de torradas e moídas podem ser usadas como substituto do café.

 

Plantada em fileiras alternadas com outras espécies a leucaena pode estimular o crescimento daquelas.

 

A leucena é também usada em várias regiões do mundo como planta ornamental, o que já acontece em Ponta Delgada, num dos seus grandes jardins.

 

2 de julho de 2024

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Árvore-da-borracha-australiana

 


Árvore-da-borracha-australiana

 

 

A árvore-da-borracha-australiana, figueira-da-austrália ou figueira-estranguladora (Ficus macrophylla Desf.ex Pers.) é uma espécie, da família Moraceae, originária das florestas chuvosas da costa leste da Austrália.

 

A árvore-da-borracha-australiana pode atingir mais de 30 m de altura e possui um tronco acinzentado. “Do tronco principal saem junto ao solo “raízes tabulares” como que escoras que melhor prendem a árvore ao chão e que atingem grande desenvolvimento” (Saraiva, 2020).

 

As suas folhas são grandes, com cerca de 10 a 25 cm de comprimento e cerca de 7 a 12 cm de largura, coriáceas que são verde-escuras na página superior e ferrugíneas na página inferior.

 

Os seus frutos, os figos, que são pequenos, são oblongo-esféricos e atingem de 2 a 2,5 cm de diâmetro. À medida que amadurecem passam da cor verde para púrpura.

 

A árvore-da-borracha-australiana terá chegado a São Miguel em meados do século XIX, tendo os exemplares existentes no Jardim José do Canto uma idade aproximada de 170 anos, pois a sua presença naquele jardim está referenciada na “Enumeração das principais plantas existentes no meu Jardim de Sta. Anna na primavera de 1856”, elaborada por José do Canto.

 

O magnífico exemplar existente no Jardim António Borges, que terá uma idade próxima dos 160 anos, foi classificado por Despacho publicado no Diário do Governo, II Série, nº.238, de 14 de outubro de 1970.

 

De acordo com Albergaria (2021), “o exemplar do Jardim António Borges possuía em 2018, 22,6 m de altura e 24 m de diâmetro de copa. Apesar das grandes dimensões deste exemplar a espécie é mencionada pela primeira vez no Jardim em 1960 no caderno manuscrito do Professor João do Amaral Franco.”

 

O facto da espécie apenas ter sido referida em 1960 apenas significa que a mesma esteve durante muitos anos mal classificada, como terá acontecido no “Catálogo das Plantas” datado de 1865 ou no interessante livro, “Parques e Jardins dos Açores” de Isabel Albergaria, em que a espécie está identificada como Ficus elastica.

 

A espécie, segundo Saraiva (2020), poderá ter sido introduzida em Portugal continental por Edmond Goeze oferecida por José do Canto. O maior exemplar existente no país, ainda de acordo com o mesmo autor, encontra-se, em Coimbra, no Jardim Botânico da Universidade, onde trabalhou Goeze, e possui 11,5 m de PAP (Perímetro (do tronco) à Altura do Peito) e 32 m de DC (Diâmetro da Copa)

 

Na ilha de São Miguel existem exemplares notáveis da árvore-da-borracha-australiana no Jardim José do Canto, no Jardim do Palácio de Santana e no Jardim António Borges. O geógrafo madeirense Raimundo Quintal no texto “Árvores monumentais nos jardins, parques e matas de São Miguel – proposta de classificação”, publicado em 2019, sugeriu que que se mantivesse a classificação do exemplar existente no Jardim António Borges, que fossem classificados dois exemplares existentes no Jardim José do Canto e um exemplar existente no Jardim do Palácio de Santana.

 

Esta espécie que tem uma longevidade superior a 150 anos, é muito apreciada pelos visitantes dos jardins onde se encontra pelo espetáculo único das suas raízes tabulares que também fazem com que esta bonita planta ornamental não deva ser plantada junto de edifícios, sendo adequada apenas para parques e jardins e outros locais onde as suas raízes tenham espaço suficiente para se desenvolverem livremente.

 

Do mesmo género, para além das espécies já referidas (Ficus macrophylla e Ficus elastica) é possível encontrar na nossa ilha, entre outras, a Ficus carica (figueira), cultivada como árvore de fruto, e a ornamental figueira-da-índia (Ficus benjamina) que pode ser observada no Jardim António Borges, no Jardim José do Canto e no Jardim do Palácio de Santana.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Faia-europeia

 



Faia-europeia

 

A faia-europeia ou faia (Fagus sylvatica L.) é uma espécie, da família Fagaceae, oriunda de uma vasta área da Europa que abrange o norte de Espanha, França, sul de Inglaterra e sul dos países escandinavos, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Polónia, Itália e Países Balcânicos.

 

O nome científico Fagus, conserva a denominação latina que, por sua vez, deriva do grego fagos ou phagos, que significa comilão, uma referência ao facto dos frutos serem muito nutritivos e sylvatica, que indica dos bosques ou selvagem.

 

A faia-europeia á uma árvore caducifólia, de copa ovada ou arredondada que pode atingir 30 m de altura ou mais. O seu tronco apresenta casca lisa e cinzenta. As folhas, de margens ondeadas, são ovadas ou elíticas, apresentando nas margens uma penugem. As flores, tanto as masculinas como as femininas, que são pouco notórias, estão dispostas em amentos. Os frutos (aquénios) são normalmente constituídos por duas nozes lustrosas de forma triangular.

 

Em Portugal continental, a faia é uma espécie exótica que tem sido plantada pelos Serviços Florestais, sobretudo na Serra da Estrela, no perímetro florestal de Manteigas, e nalgumas serras do Norte. Também é cultivada como espécie ornamental, em parques e jardins, existindo exemplares notáveis em Ponte de Lima, Lamego, Porto (no Parque de Serralves), em Lisboa e em Sintra.

 

Sobre a presença da faia-europeia na ilha de São Miguel, há um excelente texto, intitulado “Matas”, publicado no nº 21, de 1849, de “O Agricultor Michaelense”.

 

Para alem da menção à utilidade da planta e do modo de propagação da mesma, que era por semente, sobre a sua chegada a São Miguel, podemos ler o seguinte: “Sabemos que nos últimos sete anos várias pessoas fizeram sementeiras de Faia, importada a sua semente de Inglaterra.”

 

Mas tudo leva a crer que a presença da faia-europeia é mais antiga, pois no mesmo texto é afirmado que:

 

“No logar das Socas, em prédio pertencente ao Sr. Guilherme Scholtz há um grupo de magestosas faias; ni sitio do Botelho, na auinta do Sr. Barão de Fonte Bella, há tambémuma avenida de belas faias, na servidão que dirige à cascata; e finalmente na Grimaneza, n’uma matta que pertence ao fallecido Sr. Annio José de Vasconcellos, campeam á margem da estrada, e como que pregando o exemplo, duas frondosíssimas árvores.”

 

Na atualidade, na ilha de São Miguel, a faia-europeia é usada como planta ornamental, podendo ser observada no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim do Pico Salomão, no Parque Terra Nostra, no Viveiro Florestal das Furnas e na Mata-Jardim José do Canto-Lagoa das Furnas.

 

A madeira da faia, branca ou acastanhada, por vezes com tons rosados, é bonita, sendo por isso muito usada em carpintaria e marcenaria, para o fabrico de elementos torneados, mobiliários e instrumentos musicais. Também pode ser usada para pasta de papel e como combustível, já que apresenta uma elevada capacidade calorífica.

 

Segundo Pio Font Quer (1988) o carvão vegetal proveniente da madeira de faia-europeia é:

 

“usado em Medicina sempre que convém absorver gases pútridos, sobretudo em fermentações intestinais de tipo anormal, no chamado meteorismo, nas disenterias flatulentas e em todos os casos em que não só é aconselhável desinfetar moderadamente, mas também absorver gases produzidos em excesso. Na higiene oral o mesmo carvão macio e ligeiramente desinfetante constitui um excelente dentífrico. Também se usa em certos casos de envenenamento, como primeira providência para parar o mal.”

 

O mesmo autor refere que por destilação seca da madeira se obtém o breu de faia que foi muito usado para combater a tuberculose.

https://sig.serralves.pt/pt/flora/detalhe.php?id=1010

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fagus_sylvatica

 

Teófilo Braga

domingo, 2 de junho de 2024

Ginjeira-do-mato

 


Ginjeira-do-mato

 

A Ginjeira-do-mato, ginjeira-brava ou ginja (Prunus azorica (Hort. ex Mouil.) Rivas Mart.) é uma espécie endémica dos Açores que pertencente à família Rosaceae. Não existe em Santa Maria, Graciosa e Corvo.

 

Vieira, Moura e Silva (2020) referem que “estudos recentes sugerem que não existe suficiente diferenciação para ser considerada uma espécie distinta de Prunus, mas sim a subespécie Prunus lusitânica subsp. azorica (Mouill.) Franco.”

 

A ginjeira-do-mato é uma árvore perenifólia que raramente ultrapassa os 6 metros de altura, com folhas de forma oval-elíptica, glabras e de cor verde-escuro. As suas flores, que se apresentam em cachos, são brancas e podem ser vistas nos meses de março, abril, maio, junho e julho. Os seus frutos são carnudos, ovoides e pretos quando maduros.

 

No estado selvagem é possível encontrar a ginja-do-mato, em florestas nativas normalmente entre os 500 m e os 700 m de altitude. Na ilha de São Miguel, para a observar aconselhamos uma visita à Serra da Tronqueira, no Nordeste.

 

Por pertencer à flora primitiva dos Açores a ginjeira-do-mato é referida, por várias vezes, por Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra, ao descrever várias ilhas do nosso arquipélago. Numa das referências àquela espécie Gaspar Frutuoso, no Capítulo I, do Livro IV, escreveu o seguinte:

“Chegando aqui às ilhas os novos descobridores, tomaram terra no lugar, onde agora se chama a Povoação Velha, pela que ali fizeram depois, como adiante contarei, e desembarcando antre duas frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, antre rochas e terras altas, todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias, e outras diversas árvores, deram todos, com muito contentamento e festa, graças a Deus, não as que por tão alta mercê se lhe deviam, senão as que podem dar uns corações contentes como bem tão grande que tinham presente, desejado por muitos dias e com tanto trabalho e enfadamento de importunas viagens por tantas vezes buscado.”

 

No relatório “A agricultura no distrito da Horta (subsídios para o seu estudo)”, citado por Carreiro da Costa (1989), sobre a presença de várias espécies vegetais na ilha do Pico, os autores, relativamente à ginjeira-do- mato escrevem: a sua “madeira [é] muito apreciada para obras de entalhamento e casca rica duma substância corante com que os pescadores tingem as redes”.

 

Ramos (1871) já havia escrito algo semelhante ao relatório citado por Carreiro da Costa. Segundo ele, “a madeira é muito apreciada pelos entalhadores; da sua casca fazem grande uso os curtidores, e também com ella tingem os pescadores as suas redes.”

 

Vieira, Moura e Silva (2020) escrevem que os frutos são comestíveis e são uma importante fonte de alimentação para o priolo, ave endémica dos Açores.

De acordo com o Dr. Francisco Carreiro da Costa, foi à ginjeira do mato que os açorianos foram buscar o nome para várias localidades, como por exemplo Ginjal, em São Miguel e na Terceira, e Canada da Ginja, em São Jorge.

 

Hoje, a ginjeira-do-mato é muito rara e praticamente deixou de ter qualquer uso, para além do ornamental. Assim, ainda em número muito reduzido, já se podem encontrar alguns exemplares em parques e jardins públicos e privados.

 

Quem quiser observar a ginjeira-do-mato, fora do seu ambiente natural, pode fazê-lo no Jardim da Universidade, no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim Botânico José do Canto, no Parque Urbano, na Quinta da Torre-Capelas, na Quinta-Jardim da Ribeira Nova- Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, no Parque Terra Nostra e na Mata-Jardim José do Canto-Furnas.


Teófilo Braga

terça-feira, 21 de maio de 2024

Louro

 



Louro

 

O louro, loureiro ou louro-da-terra (Laurus azorica), é uma planta endémica dos Açores, existente em todas as ilhas do arquipélago, que pertence à família Lauraceae.

 

O louro é uma árvore perenifólia que pode atingir até 15 m de altura. As suas folhas são elípticas, oblongas ou obovadas, as suas flores são verde-amareladas e os frutos são carnudos, elipsoides e pretos quando estão maduros.

 

O louro foi das plantas mais importantes para os primeiros habitantes dos Açores, devido à sua madeira, que foi usada como matéria-prima para o fabrico de carros, arados, charruas e cangas para as juntas de bois e às suas bagas. Gaspar Frutuoso (1998) sobre o seu uso escreveu o seguinte: “…louros (de cuja baga se faz todos os anos que a há muito azeite que, ainda que não presta para comer, serve de alumiar e de mezinhas na terra e fora dela, onde se leva) …”.

 

Em algumas ilhas dos Açores, o louro é usado como sebe alta de proteção de frutícolas. Brandão de Oliveira (1985) sobre o assunto escreveu: “…cujo uso em sebes de há muito tem vindo a ser posto de parte sobretudo porque esta espécie apresenta como regra curta duração. Ainda subsiste em consociação por exemplo em São Miguel (Capelas).”

 

Ao descrever a ilha de São Miguel, Gaspar Frutuoso por várias vezes regista a existência de louros, cuja presença terá dado o nome a alguns locais, como a Roça do Louro ou o Pico do Louro. Ao mencionar as Capelas, Frutuoso escreveu o seguinte: “Logo pegado com ele, para a parte da serra, se chama aquela terra as Capelas, da razão do qual nome há muitas opiniões. São estas Capelas biscoutos, e terras de pão poucas, carecidas de águas, mas abastadas de mato de murtaes, tamujos, louros e árvores de outra sorte; há nelas algumas benfeitorias de pomares e vinhas.”

 

Os louros ou loureiros estão também ligado à religiosidade popular, sendo usados para fazer as tradicionais fogueiras em honra de Santo Antão ou na noite de São João.

 

Sobre os efeitos resultantes de saltar às fogueiras Armando Cortes Rodrigues, citado por Furtado (2010) deu a conhecer a seguinte quadra do Cancioneiro Geral dos Açores:

 

São João é divertido

Amigo das brincadeiras

Abençoa as criancinhas

Quando saltam as fogueiras

 

Furtado (2010) também recorda que, de acordo com a “tradição popular, quem saltar uma fogueira na noite de S. João, em número ímpar de saltos, ficará todo o ano protegido contra todos os males.”

 

O Padre Ernesto Ferreira, no seu livro “A alma do povo micaelense”, datado de 1933, refere-se àquela noite do seguinte modo: “Noite de Sam João! Noite de Sam João! Que saudade do crepitar das tuas fogueiras, em que ardem loiros, embalsamando os ares com os seus acres aromas!”

 

Para além do seu uso na culinária, Abranches (1894) refere que o louro era usado como desinfetante e Gomes (1993) escreve que “com as suas folhas obtém-se um chá com propriedades digestivas, expectorantes, diuréticas e sudoríficas.”

 

Os agricultores colocavam ramos de louro sobre os tabuleiros de batatas para evitar a traça (Phthorimaea operculella).

 

Para além da espécie que vimos mencionando, nos Açores é possível encontrar também o Laurus nobilis, oriundo da Região Mediterrânica, mas que se encontra naturalizado nas seguintes ilhas: Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Terceira e São Miguel.

 

Na ilha da Madeira, a partir do loureiro-da-madeira (Laurus novocanariensis) é extraído o azeite de louro que, segundo Raimundo Quintal, “tem fama de ser bom remédio depurativo do sangue e cicatrizante de lesões internas e externas. O azeite de louro é também usado para friccionar as articulações com o objetivo de diminuir as dores reumáticas.”

 

Teófilo Braga