quinta-feira, 28 de novembro de 2024
segunda-feira, 25 de novembro de 2024
Cletra
Cletra
A cletra, verdenaz, (folhado ou folhadeiro, na Madeira) (Clethra
arborea Aiton) é uma espécie, da família Clethraceae, oriunda da Madeira,
que nos Açores apenas existe na ilha de São Miguel, onde se encontra
naturalizada e apresenta um carácter invasivo, isto é, afeta de forma negativa
os ecossistemas naturais e seminaturais.
Na Madeira, a cletra existe na sua Laurissilva do til (Ocotea
foetens) e é considerada extinta nas ilhas Canárias. De acordo com Quintal
(2022), como cultivada é possível encontrar a cletra em vários espaços, como o
Campo de Educação Ambiental do Santo da Serra, a Quinta do Santo da Serra, o
Parque Florestal do Ribeiro Frio, a Quinta Monte Palace e a Quinta Jardins do
Imperador.
Atualmente, segundo Vieira, Moura e Silva (2020), nos Açores, a
cletra é “muito comum na floresta da Laurissilva, ravinas, taludes das estradas
e zonas perturbadas; geralmente entre 500-1000 m de altitude.”
A cletra é uma árvore pequena que pode alcançar 8 a 10 m de altura,
com ritidoma liso, acastanhado ou acinzentado. As folhas apresentam uma
coloração verde-pálido, são serradas, glabras na página superior e pubescentes
na inferior. As flores, que surgem de agosto a outubro, são brancas, muito
aromáticas e dispostas em cachos. Os frutos são cápsulas acastanhadas muito
pequenas e felpudas.
Como terá chegado a cletra a São Miguel e com que objetivo?
Tal como muitas outras plantas, a cletra foi introduzida, na nossa
ilha, intencionalmente como ornamental em jardins.
Antes de responder à questão, regista-se que segundo Gabriel (2019)
os primeiros registos da presença da cletra fora dos jardins foram efetuados
por João do Amaral Franco, em 1960, no Espigão dos Bois, no Nordestinho.
Sobre a introdução propriamente dita, o botânico sueco Erik Sjögren (1984), escreveu o seguinte:
“Foi
provavelmente introduzida em São Miguel há cerca de 20 a 25 anos. Alguns
exemplares escapados foram encontrados em 1965 pelo autor na Região do Pico da
Vara. Em 1982 encontravam-se perfeitamente estabelecidos na Laurissilva e em
grandes extensões. É o mais recente exemplo nos Açores das consequências,
muitas vezes inesperadas, da introdução de plantas exóticas.”
Embora sem qualquer documentação que confirme a data mencionada por
Erik Sjögren, conheço um relato onde é afirmado que chegaram em data aproximada
à referida plantas vindas da ilha da Madeira para os Serviços Florestais.
Apesar do afirmado acima, a verdade é que a presença da cletra a
São Miguel já ocorria no século XIX. Com efeito, em 1856, numa lista das
principais plantas existentes no jardim de José do Canto já constavam 4
espécies do género Clethra, entre as quais a arborea.
De acordo com Jardim, Sequeira e Capelo (2007) para além de ser
cultivada em jardins, na ilha da Madeira, “a madeira foi no passado utilizada
em embutidos, carpintaria, marcenaria, utensílios domésticos, bem como para
lenha. Dos seus caules a população madeirense obtinha bordões, cabos para
ferramentas agrícolas e varas para pesca.”
Na ilha de São Miguel, a cletra expandiu-se de tal modo que já é
possível encontrá-la em quase toda a ilha, não sendo muito comum em jardins e
espaços ajardinados.
Mas nem tudo é negativo relativamente à presença da cletra em São
Miguel. Com efeito, de acordo com Jaime Ramos (2005), a cletra é uma importante
fonte de alimento para o priolo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha
de São Miguel, durante o inverno, pois as suas sementes são consumidas entre
outubro e março.
25 de novembro de 2024
terça-feira, 19 de novembro de 2024
Amoreiras
Amoreiras
A amoreira ou
amoreira-branca (Morus alba L.) é uma planta pertencente à família
Moraceae oriunda da Ásia ocidental, mas que foi introduzida em várias regiões. Além
da espécie referida, há muitas outras, como a amoreira-preta (Morus nigra
L.).
As amoreiras terão
sido introduzidas na Europa por volta do século VI e em Portugal no século XV.
Nos Açores, as amoreiras terão sido introduzidas nos primeiros anos do
povoamento, como prova Gaspar Frutuoso (1522-1591) que no seu livro “Saudades
da Terra” regista a sua presença em São Miguel em São Roque e na Povoação. O
mesmo autor ao descrever a “costa da ilha de Santa Maria, pela banda do norte,
das Lagoinhas até ao Castelete, donde se começou e acaba”, escreveu o seguinte:
“Nas quais há terras de pão, que poderão ser sete até oito moios, com muitas
árvores de fruta e figueiras e amoreiras.”
As várias
tentativas para incrementar a indústria da seda em São Miguel, nos séculos XIX
e XX, não tiveram êxito.
A maior terá
ocorrido no século XIX através da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense
que incentivou o cultivo de amoreiras. A título de exemplo, no nº1, relativo a
1848, da sua publicação mensal “O Agricultor Michaelense” foi publicada a
informação de que aquela sociedade possuía seis mil pés de amoreiras de 3 anos
para distribuir.
No século XX, o
micaelense Jaime Hintze, realizou várias experiências com amoreiras nas suas
propriedades, tendo só na Gorreana plantado duzentas da variedade Moretti.
Sobre o assunto é
muito interessante a comunicação que fez, em 1938, no Primeiro Congresso
Açoreano, realizado em Lisboa. Da mesma, abaixo transcreve-se um extrato:
«Eu mesmo fiz experiência na Gorreana, neste caso simplesmente para ver de
quanto era capaz, quanto à cultura da amoreira, o terreno de São Miguel, e
obtive três colheitas. A amoreira vegeta de tal forma que poderá facilmente dar
quantidades de folhas desde o mês de Abril a Setembro e o bastante para que se
possam criar três culturas de sirgo, o que é muito importante. A planta em três
anos está já em plena produção.
A sericicultura, é uma indústria caseira, o que tem demonstrado várias
tentativas infrutíferas quando se desejou industrializar a educação do bicho-da-seda.
Até isso convém, pois espalha-se a cultura por toda a parte, indo a remuneração
a todos os recantos da ilha.
Seria ela uma forma de contrabalançar a falta de emigração que se vem
notando na Ilha de São Miguel, em face do crescimento constante da sua
população. Não esqueçamos que só São Miguel tem aproximadamente e a
multiplicar-se sempre, cerca de metade da população das nove ilhas.”
A amoreira-branca
é uma árvore de folha caduca que pode alcançar uma altura de 15 metros e
atingir uma longevidade próxima dos 150 anos. As suas folhas são alternas,
ovadas a cordiformes, podendo ou não ser lobadas, verde-escuras e brilhantes
ficando amarelas no outono. As suas flores, tanto as masculinas como as
femininas, são muito pequenas e esverdeadas, não tenho qualquer interesse ornamental.
Os seus frutos são de cor creme (na amoreira-negra são negros ou muito escuros)
A multiplicação da amoreira pode ser feita
por sementeira direta, por estacas, usando as semilenhosas e por alporquia.
Para além do interesse ornamental da
amoreira, a planta é cultivada pelos seus frutos que são comestíveis e
procurados pelas aves. As fibras da casca eram usadas para o fabrico de cordas,
mas a principal razão para o seu cultivo deverá ser devido ao uso das suas
folhas para a alimentação do bicho-da-seda.
No passado a amoreira foi utilizada na
tinturaria vegetal. Com efeito, era a partir dos olhos da amoreira-preta que se
obtinha o preto.
Tal como outras plantas a amoreira figura
na toponímia micaelense. São exemplos a Amoreira, na Bretanha, e as Amoreiras,
na Ribeira das Tainhas.
sábado, 16 de novembro de 2024
Álamo
Álamo
O
álamo ou choupo-branco (Populus alba L.) é uma planta da família Salicaceae originária do centro e sul da
Europa, havendo alguns autores que levantam a hipótese de o ser também do norte
de África e da Ásia Central.
O
álamo é uma árvore caducifólia de crescimento rápido, que em média atinge uma
altura de 12 a 15 metros.
O
tronco apresenta uma casca lisa e esbranquiçada. As folhas são alternas e
ovais, verdes na face superior e de cor branco-cinza na inferior, e as flores
formam amentilhos, os masculinos acinzentados, com estames avermelhados
e os femininos esverdeados. Os frutos são cápsulas ovoides.
Tudo
indica que as duas espécies de álamo; a alba e a nigra, foram
introduzidas, na ilha de São Miguel, no século XIX. Mas poderão ter sido antes,
como terá ocorrida na ilha Terceira onde já estavam presentes no final do
século XVIII.
Os
dois irmãos Joseph e Henry Bullar, que nos anos 1838 e 1839 estavam nos Açores,
ao descreverem no seu livro “Um inverno nos Açores e um verão no vale das
Furnas”, Vila Franca do Campo, mencionaram a existência de uma pequena mata
onde, entre outras árvores, encontraram álamos.
José
do Canto, em 1856, já possuía várias espécies de álamos no seu jardim de Ponta
Delgada e plantou-os em várias das suas vastas propriedades existentes no Porto
Formoso, na Ribeirinha ou na Lagoa do Congro.
Nos
Açores, os álamos, sobretudo a espécie nigra, foram usados para a
divisão de propriedades e como sebes e os seus ramos mais finos eram utilizados
para amarrações e para fazer cestos, constituindo também umas excelentes
plantas ornamentais. O engenheiro agrónomo Arlindo Cabral, no nº 17do Boletim
da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, relativo ao
primeiro semestre de 1953, sobre o assunto menciona o seguinte:
“A
ele [Populus nigra] se associa por vezes a hortênsia, a qual preenche a parte
inferior mais despida […]. Não toma grande desenvolvimento, pelo que não é
usado na defesa de pomares, mas apenas nas terras empregadas m culturas
arvenses. Havendo o cuidado de cortar as raízes laterais, esta espécie pouco
concorre com as plantas cultivadas sob a sua protecção.”
Em
1932, num relatório elaborado sobre o caso florestal do distrito da Horta, no
que toca à ilha do Pico pode ler-se que o álamo (Populus alba) era
“empregado na ornamentação de parques e na arborização das estradas” (Costa,
1989):
Ambas
as espécies são usadas, também, na medicina popular, apresentando as mesmas
indicações terapêuticas.
Augusto
Gomes (1992) refere que, na ilha Terceira, “os seus rebentos, em infusão de
aguardente ou álcool, servem para desinfectar feridas.”
Corsépius
(1997), para o choupo-negro, menciona as seguintes propriedades e indicações:
“antissética e expectorante- bronquite; febrífuga e sudorífica – febre;
digestiva; analgésica-reumatismo; vulnerária-caspa.”
Saraiva
(2020) refere a presença de exemplares notáveis na Estrada de Circunvalação, no
Porto, e na mesma cidade na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação.
Na
Madeira, Raimundo Quintal (2022), regista a presença de álamos na Quinta
Jardins do Lago, no Jardim da Universidade e no Solar dos Esmeraldos, na
Lombada da Ponta do Sol.
Em
São Miguel há álamos em várias localidades, de que destacamos o Pinhal da Paz,
o Jardim de Infância, na Rua Prof. Luciano Mota Vieira, em Ponta Delgada, e a
Mata-Jardim José do Canto, nas margens da Lagoa das Furnas.
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
Nogão
Nogão
O
nogão ou nogueira-preta (Juglans nigra L.) é uma árvore da família Juglandaceae
oriunda do este da América do Norte.
De
acordo com Saraiva (2020), o termo Juglans deriva de jovis glans – noz
de Júpiter e o nigra, negra deve-se à cor da casca e dos frutos. O nigra,
segundo um texto publicado no jornal “Agricultor Michaelense”, nº 23, de
novembro de 1849, “vem-lhe de que o cerne de cor violeta, se torna preto,
exposto ao ar.”
O
nogão é uma árvore de folha caduca, de tronco cinzento perfurado que pode
atingir uma altura de 15 metros e possui uma longevidade próxima dos 75 anos.
As suas folhas são grandes e compostas, podendo atingir 60 cm de comprimento,
sendo os folíolos de margens serradas e de cor verde baça. Cada árvore possui
flores dos dois sexos, sendo as masculinas de cor verde, sendo o período de
floração nos meses de abril, maio e junho. Os frutos são globosos, com um
diâmetro de 4 a 5 cm.
O
nogão foi introduzido em Inglaterra em 1629 e daí terá passado para outros
países, como Portugal.
À
nossa ilha, tudo leva a crer que terá sido introduzido em 1849, como se pode
depreender do texto já mencionado publicado no órgão da Sociedade Promotora da
Agricultura Michaelense:
“Apenas
tem decorrido alguns mezes depois que possuímos em S. Miguel uma destas
plantas; a sua vegetação ressentiu-se da viagem: na futura primavera
informaremos os nossos leitores do seu andamento: mas bom seria que outros
experimentassem a sua cultura, porque ensaios desacompanhados não dão resultado
em que ninguém se fie.”
Sobre
os usos do nogão, ainda no texto que vimos citando pode-se ler o seguinte:
“A
madeira é rigissima, não racha, pule-se bem, e não é atacada de bicho algum.
Fazem-se d’ ella forro para cazas, excelentes cubos para rodas; nos tapumes das
terras fincam ás vezes estacas desta madeira, que duram mais de 25 annos sem
apodrecer: e em toda a architectura
civil e naval d’ella fazem grande uso. É co, a casca verde das nozes que esta
nogueira produz, que se tingem estofos de lan.”
Para
além do mencionado, regista-se que as nozes são comestíveis e também são usadas
para a extração de um óleo.
Embora
pouco usado entre nós, o nogão pode ser utilizado como planta ornamental.
Em
Portugal continental há alguns exemplares notáveis, nomeadamente na cidade do
Porto, nos arruamentos da cidade universitária, e em Ponte de Lima, no Parque
da Lapa (Saraiva, 2020).
Na
ilha da Madeira, pode-se encontrar o nogão em vários jardins, como a Quinta do
Palheiro Ferreiro, a Quinta Monte Palace, a Quinta do Santo da Serra e o Campo
de Educação Ambiental do Santo da Serra, este propriedade e gerido pela
Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal (Quintal, 2022).
Na
ilha de São Miguel, pode-se observar alguns exemplares, nas Furnas, no Parque
Terra Nostra, e na Mata-Jardim José do Canto e na freguesia da Fajã de Cima,
concelho de Ponta Delgada, no Pinhal da Paz.
7
de novembro de 2024