segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Cletra


 


Cletra

 

A cletra, verdenaz, (folhado ou folhadeiro, na Madeira) (Clethra arborea Aiton) é uma espécie, da família Clethraceae, oriunda da Madeira, que nos Açores apenas existe na ilha de São Miguel, onde se encontra naturalizada e apresenta um carácter invasivo, isto é, afeta de forma negativa os ecossistemas naturais e seminaturais.

 

Na Madeira, a cletra existe na sua Laurissilva do til (Ocotea foetens) e é considerada extinta nas ilhas Canárias. De acordo com Quintal (2022), como cultivada é possível encontrar a cletra em vários espaços, como o Campo de Educação Ambiental do Santo da Serra, a Quinta do Santo da Serra, o Parque Florestal do Ribeiro Frio, a Quinta Monte Palace e a Quinta Jardins do Imperador.

 

Atualmente, segundo Vieira, Moura e Silva (2020), nos Açores, a cletra é “muito comum na floresta da Laurissilva, ravinas, taludes das estradas e zonas perturbadas; geralmente entre 500-1000 m de altitude.”

 

A cletra é uma árvore pequena que pode alcançar 8 a 10 m de altura, com ritidoma liso, acastanhado ou acinzentado. As folhas apresentam uma coloração verde-pálido, são serradas, glabras na página superior e pubescentes na inferior. As flores, que surgem de agosto a outubro, são brancas, muito aromáticas e dispostas em cachos. Os frutos são cápsulas acastanhadas muito pequenas e felpudas.

 

Como terá chegado a cletra a São Miguel e com que objetivo?

 

Tal como muitas outras plantas, a cletra foi introduzida, na nossa ilha, intencionalmente como ornamental em jardins.

 

Antes de responder à questão, regista-se que segundo Gabriel (2019) os primeiros registos da presença da cletra fora dos jardins foram efetuados por João do Amaral Franco, em 1960, no Espigão dos Bois, no Nordestinho.

 

Sobre a introdução propriamente dita, o botânico sueco Erik Sjögren (1984), escreveu o seguinte:

 

“Foi provavelmente introduzida em São Miguel há cerca de 20 a 25 anos. Alguns exemplares escapados foram encontrados em 1965 pelo autor na Região do Pico da Vara. Em 1982 encontravam-se perfeitamente estabelecidos na Laurissilva e em grandes extensões. É o mais recente exemplo nos Açores das consequências, muitas vezes inesperadas, da introdução de plantas exóticas.”

 

Embora sem qualquer documentação que confirme a data mencionada por Erik Sjögren, conheço um relato onde é afirmado que chegaram em data aproximada à referida plantas vindas da ilha da Madeira para os Serviços Florestais.

 

Apesar do afirmado acima, a verdade é que a presença da cletra a São Miguel já ocorria no século XIX. Com efeito, em 1856, numa lista das principais plantas existentes no jardim de José do Canto já constavam 4 espécies do género Clethra, entre as quais a arborea.

 

De acordo com Jardim, Sequeira e Capelo (2007) para além de ser cultivada em jardins, na ilha da Madeira, “a madeira foi no passado utilizada em embutidos, carpintaria, marcenaria, utensílios domésticos, bem como para lenha. Dos seus caules a população madeirense obtinha bordões, cabos para ferramentas agrícolas e varas para pesca.”

 

Na ilha de São Miguel, a cletra expandiu-se de tal modo que já é possível encontrá-la em quase toda a ilha, não sendo muito comum em jardins e espaços ajardinados.

 

Mas nem tudo é negativo relativamente à presença da cletra em São Miguel. Com efeito, de acordo com Jaime Ramos (2005), a cletra é uma importante fonte de alimento para o priolo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha de São Miguel, durante o inverno, pois as suas sementes são consumidas entre outubro e março.

 

25 de novembro de 2024

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Amoreiras

 


Amoreiras

 

A amoreira ou amoreira-branca (Morus alba L.) é uma planta pertencente à família Moraceae oriunda da Ásia ocidental, mas que foi introduzida em várias regiões. Além da espécie referida, há muitas outras, como a amoreira-preta (Morus nigra L.).

 

As amoreiras terão sido introduzidas na Europa por volta do século VI e em Portugal no século XV. Nos Açores, as amoreiras terão sido introduzidas nos primeiros anos do povoamento, como prova Gaspar Frutuoso (1522-1591) que no seu livro “Saudades da Terra” regista a sua presença em São Miguel em São Roque e na Povoação. O mesmo autor ao descrever a “costa da ilha de Santa Maria, pela banda do norte, das Lagoinhas até ao Castelete, donde se começou e acaba”, escreveu o seguinte: “Nas quais há terras de pão, que poderão ser sete até oito moios, com muitas árvores de fruta e figueiras e amoreiras.”

 

As várias tentativas para incrementar a indústria da seda em São Miguel, nos séculos XIX e XX, não tiveram êxito.

 

A maior terá ocorrido no século XIX através da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense que incentivou o cultivo de amoreiras. A título de exemplo, no nº1, relativo a 1848, da sua publicação mensal “O Agricultor Michaelense” foi publicada a informação de que aquela sociedade possuía seis mil pés de amoreiras de 3 anos para distribuir.

 

No século XX, o micaelense Jaime Hintze, realizou várias experiências com amoreiras nas suas propriedades, tendo só na Gorreana plantado duzentas da variedade Moretti.

 

Sobre o assunto é muito interessante a comunicação que fez, em 1938, no Primeiro Congresso Açoreano, realizado em Lisboa. Da mesma, abaixo transcreve-se um extrato:

 

«Eu mesmo fiz experiência na Gorreana, neste caso simplesmente para ver de quanto era capaz, quanto à cultura da amoreira, o terreno de São Miguel, e obtive três colheitas. A amoreira vegeta de tal forma que poderá facilmente dar quantidades de folhas desde o mês de Abril a Setembro e o bastante para que se possam criar três culturas de sirgo, o que é muito importante. A planta em três anos está já em plena produção.

 

A sericicultura, é uma indústria caseira, o que tem demonstrado várias tentativas infrutíferas quando se desejou industrializar a educação do bicho-da-seda. Até isso convém, pois espalha-se a cultura por toda a parte, indo a remuneração a todos os recantos da ilha.

 

Seria ela uma forma de contrabalançar a falta de emigração que se vem notando na Ilha de São Miguel, em face do crescimento constante da sua população. Não esqueçamos que só São Miguel tem aproximadamente e a multiplicar-se sempre, cerca de metade da população das nove ilhas.”

 

A amoreira-branca é uma árvore de folha caduca que pode alcançar uma altura de 15 metros e atingir uma longevidade próxima dos 150 anos. As suas folhas são alternas, ovadas a cordiformes, podendo ou não ser lobadas, verde-escuras e brilhantes ficando amarelas no outono. As suas flores, tanto as masculinas como as femininas, são muito pequenas e esverdeadas, não tenho qualquer interesse ornamental. Os seus frutos são de cor creme (na amoreira-negra são negros ou muito escuros)

 

A multiplicação da amoreira pode ser feita por sementeira direta, por estacas, usando as semilenhosas e por alporquia.

 

Para além do interesse ornamental da amoreira, a planta é cultivada pelos seus frutos que são comestíveis e procurados pelas aves. As fibras da casca eram usadas para o fabrico de cordas, mas a principal razão para o seu cultivo deverá ser devido ao uso das suas folhas para a alimentação do bicho-da-seda.

 

No passado a amoreira foi utilizada na tinturaria vegetal. Com efeito, era a partir dos olhos da amoreira-preta que se obtinha o preto.

 

Tal como outras plantas a amoreira figura na toponímia micaelense. São exemplos a Amoreira, na Bretanha, e as Amoreiras, na Ribeira das Tainhas.

sábado, 16 de novembro de 2024

Álamo

 


Álamo

 

O álamo ou choupo-branco (Populus alba L.) é uma planta da família Salicaceae originária do centro e sul da Europa, havendo alguns autores que levantam a hipótese de o ser também do norte de África e da Ásia Central.

 

O álamo é uma árvore caducifólia de crescimento rápido, que em média atinge uma altura de 12 a 15 metros.

 

O tronco apresenta uma casca lisa e esbranquiçada. As folhas são alternas e ovais, verdes na face superior e de cor branco-cinza na inferior, e as flores formam amentilhos, os masculinos acinzentados, com estames avermelhados e os femininos esverdeados. Os frutos são cápsulas ovoides.

 

Tudo indica que as duas espécies de álamo; a alba e a nigra, foram introduzidas, na ilha de São Miguel, no século XIX. Mas poderão ter sido antes, como terá ocorrida na ilha Terceira onde já estavam presentes no final do século XVIII.

 

Os dois irmãos Joseph e Henry Bullar, que nos anos 1838 e 1839 estavam nos Açores, ao descreverem no seu livro “Um inverno nos Açores e um verão no vale das Furnas”, Vila Franca do Campo, mencionaram a existência de uma pequena mata onde, entre outras árvores, encontraram álamos.

 

José do Canto, em 1856, já possuía várias espécies de álamos no seu jardim de Ponta Delgada e plantou-os em várias das suas vastas propriedades existentes no Porto Formoso, na Ribeirinha ou na Lagoa do Congro.

 

Nos Açores, os álamos, sobretudo a espécie nigra, foram usados para a divisão de propriedades e como sebes e os seus ramos mais finos eram utilizados para amarrações e para fazer cestos, constituindo também umas excelentes plantas ornamentais. O engenheiro agrónomo Arlindo Cabral, no nº 17do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, relativo ao primeiro semestre de 1953, sobre o assunto menciona o seguinte:

 

“A ele [Populus nigra] se associa por vezes a hortênsia, a qual preenche a parte inferior mais despida […]. Não toma grande desenvolvimento, pelo que não é usado na defesa de pomares, mas apenas nas terras empregadas m culturas arvenses. Havendo o cuidado de cortar as raízes laterais, esta espécie pouco concorre com as plantas cultivadas sob a sua protecção.”

 

Em 1932, num relatório elaborado sobre o caso florestal do distrito da Horta, no que toca à ilha do Pico pode ler-se que o álamo (Populus alba) era “empregado na ornamentação de parques e na arborização das estradas” (Costa, 1989):

 

Ambas as espécies são usadas, também, na medicina popular, apresentando as mesmas indicações terapêuticas.

 

Augusto Gomes (1992) refere que, na ilha Terceira, “os seus rebentos, em infusão de aguardente ou álcool, servem para desinfectar feridas.”

 

Corsépius (1997), para o choupo-negro, menciona as seguintes propriedades e indicações: “antissética e expectorante- bronquite; febrífuga e sudorífica – febre; digestiva; analgésica-reumatismo; vulnerária-caspa.”

 

Saraiva (2020) refere a presença de exemplares notáveis na Estrada de Circunvalação, no Porto, e na mesma cidade na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação.

 

Na Madeira, Raimundo Quintal (2022), regista a presença de álamos na Quinta Jardins do Lago, no Jardim da Universidade e no Solar dos Esmeraldos, na Lombada da Ponta do Sol.

 

Em São Miguel há álamos em várias localidades, de que destacamos o Pinhal da Paz, o Jardim de Infância, na Rua Prof. Luciano Mota Vieira, em Ponta Delgada, e a Mata-Jardim José do Canto, nas margens da Lagoa das Furnas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Nogão

 



Nogão

 

O nogão ou nogueira-preta (Juglans nigra L.) é uma árvore da família Juglandaceae oriunda do este da América do Norte.

 

De acordo com Saraiva (2020), o termo Juglans deriva de jovis glans – noz de Júpiter e o nigra, negra deve-se à cor da casca e dos frutos. O nigra, segundo um texto publicado no jornal “Agricultor Michaelense”, nº 23, de novembro de 1849, “vem-lhe de que o cerne de cor violeta, se torna preto, exposto ao ar.”

 

O nogão é uma árvore de folha caduca, de tronco cinzento perfurado que pode atingir uma altura de 15 metros e possui uma longevidade próxima dos 75 anos. As suas folhas são grandes e compostas, podendo atingir 60 cm de comprimento, sendo os folíolos de margens serradas e de cor verde baça. Cada árvore possui flores dos dois sexos, sendo as masculinas de cor verde, sendo o período de floração nos meses de abril, maio e junho. Os frutos são globosos, com um diâmetro de 4 a 5 cm.

 

O nogão foi introduzido em Inglaterra em 1629 e daí terá passado para outros países, como Portugal.

 

À nossa ilha, tudo leva a crer que terá sido introduzido em 1849, como se pode depreender do texto já mencionado publicado no órgão da Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense:

 

“Apenas tem decorrido alguns mezes depois que possuímos em S. Miguel uma destas plantas; a sua vegetação ressentiu-se da viagem: na futura primavera informaremos os nossos leitores do seu andamento: mas bom seria que outros experimentassem a sua cultura, porque ensaios desacompanhados não dão resultado em que ninguém se fie.”

 

Sobre os usos do nogão, ainda no texto que vimos citando pode-se ler o seguinte:

 

“A madeira é rigissima, não racha, pule-se bem, e não é atacada de bicho algum. Fazem-se d’ ella forro para cazas, excelentes cubos para rodas; nos tapumes das terras fincam ás vezes estacas desta madeira, que duram mais de 25 annos sem apodrecer:  e em toda a architectura civil e naval d’ella fazem grande uso. É co, a casca verde das nozes que esta nogueira produz, que se tingem estofos de lan.”

 

Para além do mencionado, regista-se que as nozes são comestíveis e também são usadas para a extração de um óleo.

 

Embora pouco usado entre nós, o nogão pode ser utilizado como planta ornamental.

 

Em Portugal continental há alguns exemplares notáveis, nomeadamente na cidade do Porto, nos arruamentos da cidade universitária, e em Ponte de Lima, no Parque da Lapa (Saraiva, 2020).

 

Na ilha da Madeira, pode-se encontrar o nogão em vários jardins, como a Quinta do Palheiro Ferreiro, a Quinta Monte Palace, a Quinta do Santo da Serra e o Campo de Educação Ambiental do Santo da Serra, este propriedade e gerido pela Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal (Quintal, 2022).

 

Na ilha de São Miguel, pode-se observar alguns exemplares, nas Furnas, no Parque Terra Nostra, e na Mata-Jardim José do Canto e na freguesia da Fajã de Cima, concelho de Ponta Delgada, no Pinhal da Paz.

 

7 de novembro de 2024