quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Til

 


TIL

 

O til (Ocotea foetens (Aiton) Baill.) é uma árvore da família Lauraceae, endémica da Madeira e das Canárias que, nos Açores, existe nas seguintes ilhas: São Miguel, Santa Maria, Terceira, Faial e Flores.

 

O til é uma árvore que pode atingir até 30-40 m de altura, perenifólia, com uma copa densa, piramidal a arredondada. As folhas, alternadas, são elípticas a ovado-elípticas, acuminadas, brilhantes e glabras na página superior. A página inferior também é glabra, mas apresenta duas depressões glandulares, cobertas de pelos compridos, na base da nervura principal. As flores, que surgem de junho a agosto, são cheirosas, pequenas, branco-esverdeadas, encontrando-se reunidas em panículas. Os frutos são elipsoidais negros, com uma cúpula que atinge o primeiro terço, assemelhando-se a uma bolota. Servm de alimento a muitas aves, nomeadamente aos pombos-torcazes (Columba palumbus azorica), subespécie endémica dos Açores.

 

Não se sabendo quando foi introduzido o til nos Açores, sabe-se que, em 1844, a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense apresentou uma proposta às Câmaras Municipais para promoverem a plantação de árvores nos baldios e nas bermas das estradas, tendo sugerido, entre outras espécies a utilizar, o til.

 

De acordo com Quintal (2023), na ilha da Madeira, “os troncos de til (Ocotea foetens) foram muito utilizados nas grandes e potentes varas dos lagares, em vigas para suportar soalhos e em peças de mobiliário. Mas nem só a construção e a marcenaria consumiram os tis desta ilha. Inúmeros foram desfeitos em lenha para alimentar os engenhos do açúcar.” Também usado como árvore de arruamento, nomeadamente no Funchal e na Ribeira Brava.

 

Na freguesia da Fajã da Ovelha, na Madeira, usa-se a planta para “lavagens do corpo, para comichão (género de urticária)” (Freitas e Mateus, 2013). Vieira, Moura e Silva (2020) consideram o til “medicinal (infusão de folhas ou frutos: anti-hipertensivo; cataplasma de folhas e ramos tenros no tratamento de doenças malignas; é rico em óleos essenciais, de odor desagradável).”

 

Em Portugal continental há exemplares notáveis no Jardim Botânico da Ajuda e no Jardim Agrícola Tropical e na Madeira, no Jardim Municipal do Funchal (Jardim Princesa Dona Maria Amélia, no Parque de Santa Catarina, no Parque Municipal do Monte, etc. e seuais

 

Na ilha de São Miguel, entre outros locais, é possível encontrar tis no Jardim Botânico José do Canto, no Pinhal da Paz, na Mata-ajardinada da Lagoa do Congro, no Jardim do Palácio de Santana, no Parque Terra Nostra e na Mata do Dr. Fraga.

 

Ao descrever a Mata da Lagoa do Congro, Raimundo Quintal, no número de outubro de 2023 da revista “Jardins” escreveu o seguinte:

 

Cerca de 150 anos após o final das plantações, algumas espécies desapareceram, outras estão representadas apenas por exemplares isolados e duas espécies arbóreas encontraram condições excecionais para crescerem e multiplicarem-se. O incenseiro (Pittosporum undulatum), nativo da Austrália, e o til (Ocotea foetens), indígena da Laurissilva da Madeira e do qual não há notícia de ter integrado a Laurissilva de São Miguel.

 

Ao percorrer os cerca de 700 metros do trilho, desde a estrada até à margem da lagoa, temos oportunidade de admirar tis monumentais, com 20 a 30 metros de altura. Alguns dobram-se e com os ramos acariciam a água. O sub-bosque é dominado por incontáveis plantas infantis e juvenis. Uma verdadeira Tilândia!”

 

Dos exemplares existentes em São Miguel, Raimundo Quintal (2019) considera que deverá ser classificado como de interesse público um exemplar existente no Jardim José do Canto, junto à estátua do seu fundador.

 

O til, segundo Saraiva (2020), que é uma árvore de crescimento lento e com uma longevidade que ultrapassa os 100 anos, multiplica-se por semente, sendo necessária humidade e alguma luz.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Freixo (s)




Freixo (s)

 

O freixo, freixo-de-flor ou freixo-da-sicília (Fraxinus ornus L.) é uma planta de folha caduca, da família Oleaceae, originária de África e da Europa (região Mediterrânica, desde Espanha até à Turquia.

 

O nome do género Fraxinus deriva da palavra grega “phraxis”, que significa separação que estará relacionado com o facto da sua madeira rachar com facilidade ou com o facto da planta ser usada na separação de terrenos. Por sua vez, o nome específico ornus, deriva do latim “orno” que significa adornar, devido ao facto das suas inflorescências serem muito decorativas em comparação com as do freixo comum (Fraxinus excelsior).

 

O freixo-de-flor, que normalmente possui uma altura próxima dos 10 m, podendo alcançar os 20 m, possui um ritidoma liso e cinzento. As suas folhas apresentam folíolos de margem dentada, podendo apresentar pelos na página inferior. As flores, que surgem nos meses de abril, maio e junho, são brancas ou creme muito vistosas, de aroma agradável e os frutos apresentam a forma de língua, com uma asa que permite a disseminação.

 

Os freixos possivelmente terão chegado ao nosso arquipélago no século XVIII, pelo menos já existiam na Ilha Terceira, segundo um relatório concluído em Angra do Heroísmo no dia 29 de dezembro de 1798.

 

No que diz respeito à ilha de São Miguel, sabe-se que José do Canto possuía no seu jardim de Santana, em 1856, 12 taxa (espécies, subespécies, variedades, etc.) de freixos.

 

No jornal “O Agricultor Michaelense”, de julho de 1849, sobre o freixo, no caso o Fraxinus excelsior, pode ler-se o seguinte:

 

“Infelismente esta arvore era completamente desconhecida em S. Miguel ha alguns anos, e ainda hoje é raríssima.

 

As primeiras plantas que vegetaram no nosso clima foram enviadas d’Inglaterra pelo Sr. Harvey, estrangeiro distincto que introduzio muitas arvores novas n’esta Ilha, para povoar um prédio, que adquirira, adjacente á Lagoa das Furnas. Sucedeu que taes freixos se espalhassem por varias localidades da Ilha, e seja qual for a causa a que se possa atribuir o mau exito da sua naturalização, bem poucos são as que tem medrado.”

 

O botânico William Trelease, natural dos E.U.A., que visitou os Açores, cita “para a ilha das Flores, o Fraxinus angustifólia […] que lhe foi trazida como indígena, mas que considera, sem dúvida, inicialmente cultivada.” (Palhinha, 1966)

 

No número mencionado do “Agricultor Michaelense” há referência à espécie Fraxinus lentiscifolia (sinónimo de Fraxinus angustifolia subsp. angustifolia) que na ilha de Santa Maria era conhecido por carrasqueiro.

 

Sobre o carrasqueiro pode ler-se, entre outras coisas, o seguinte:

 

“… é uma linda arvore, de mimosa, e elegante folhagem: propaga-se facilmente por semente, em que abunda, a qual nasce de ordinário no fim de seis mezes. Cresce logo muito, lançando em cada anno vergônteas de 4 a 5 palmos. Torna-se em breve, frondosa arvore, e produz uma das mais preciosas madeiras que se podem alcançar. Tão boa e útil é, que, de muitas que haviam em Santa Maria, não poupou p machado a mais do que a só duas, que ainda hoje se admiram n’aquela Ilha.”

 

Nos Açores, como se pode constatar, há várias espécies do género Fraxinus, com destaque, na atualidade, para o freixo-de-flor e o freixo-comum.

 

 Na ilha de São Miguel, o freixo-de-flor pode ser encontrado no Pinhal da Paz, na Fajã de Cima, na Estrada da Ribeira Grande, na Mata do Dr. Fraga, na Maia, no Parque Terra Nostra, nas Furnas e na Mata-Jardim José do Canto, nas margens da Lagoa das Furnas.  O freixo-comum pode ser observado no Jardim da Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, no Jardim Botânico José do Canto, também em Ponta Delgada, e no Parque Terra Nostra.

 

19 de dezembro de 2024

 

Teófilo Braga


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Casuarina

 



Casuarina

 

A casuarina ou filau (Casuarina equisetifolia Forst. & Forst. f.) é uma árvore oriunda da Austrália pertencente à família Casuarinaceae, à qual pertencem pelo menos 91 espécies.

 

O nome do género, Casuarina, está associado ao facto de os ramos da planta serem semelhantes às penas do casuar, ave do grupo das aves ratitas de grande porte, nativas da Austrália, Nova Guiné e ilhas circundantes. O nome da espécie, equisetifolia, é devido à semelhança entre as suas folhas e as frondes de equisetum (cavalinha ou rabo-de-asno), planta de zonas húmidas.

 

De acordo com um texto publicado no periódico da SPAM. “O Agricultor Michaelense”, nº 22, de outubro de 1849, a casuarina foi introduzida na Europa, em 1776, pelo 1º Lord Byron e na ilha de São Miguel, antes da data que Saraiva (2020) aponta para a sua introdução em Portugal, isto é, “após 1890”. Assim, segundo o texto referido aquela planta terá sido introduzida em São Miguel por Francisco Alves Vianna Serra que trouxe sementes do Rio de Janeiro e as entregou a Jorge Nesbitt.

 

Ainda de acordo com a mesma fonte as plantas adaptaram-se bem às condições do clima e solos da nossa ilha. Para além do referido, o autor do texto escreve que “o Filau chega a grande altura, sendo o tronco muito direito, e pouco ramificado: produz tão bons paus, que d’elles fazem mastros de Navios, e é empregado em todas as mais construções navaes.”

 

A casuarina é uma árvore perenifólia de casca acastanhada e copa verde-acinzentada com ramos pendentes que pode facilmente ser confundida com uma conífera. A sua altura pode atingir 30 metros e em termos de longevidade pode alcançar os 60 anos.

 

As folhas são muito pequenas, cerca de 1 mm, dispostas em raminhos e as flores, que surgem de julho a outubro, são unissexuais e encontram-se agrupadas em inflorescências: as masculinas são amareladas e femininas apresentam estiletes e estigmas cor de sangue. Os frutos são pequenas sâmaras (fruto seco, com uma semente, com um prolongamento em forma de asa membranosa), ovaladas agrupados ao longo do eixo da estrutura floral. 

 

A casuarina em alguns locais é considerada uma espécie invasora, nomeadamente nas Bermudas, Flórida e Brasil, pois tem a capacidade de produzir compostos que não permitem o desenvolvimento de outras espécies na sua proximidade.

 

A casuarina é uma planta usada na fixação de dunas e como planta ornamental. A sua madeira é também um bom combustível, podendo ser utilizada na construção civil e em marcenaria. A sua casca, rica em tanino, é utilizada no controlo de diarreias, as folhas são adstringentes e as raízes servem para a preparação de unguentos para uso dermatológico.

 

Entre nós, na ilha de São Miguel, não se conhece qualquer uso da casuarina para além do ornamental. Assim, entre outros locais, é possível encontrar casuarinas no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim da Universidade dos Açores, no Jardim Botânico José do Canto e no Parque Pedagógico Recreativo Infantil Maria das Mercês Carreiro, no Pico da Pedra.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Cletra


 


Cletra

 

A cletra, verdenaz, (folhado ou folhadeiro, na Madeira) (Clethra arborea Aiton) é uma espécie, da família Clethraceae, oriunda da Madeira, que nos Açores apenas existe na ilha de São Miguel, onde se encontra naturalizada e apresenta um carácter invasivo, isto é, afeta de forma negativa os ecossistemas naturais e seminaturais.

 

Na Madeira, a cletra existe na sua Laurissilva do til (Ocotea foetens) e é considerada extinta nas ilhas Canárias. De acordo com Quintal (2022), como cultivada é possível encontrar a cletra em vários espaços, como o Campo de Educação Ambiental do Santo da Serra, a Quinta do Santo da Serra, o Parque Florestal do Ribeiro Frio, a Quinta Monte Palace e a Quinta Jardins do Imperador.

 

Atualmente, segundo Vieira, Moura e Silva (2020), nos Açores, a cletra é “muito comum na floresta da Laurissilva, ravinas, taludes das estradas e zonas perturbadas; geralmente entre 500-1000 m de altitude.”

 

A cletra é uma árvore pequena que pode alcançar 8 a 10 m de altura, com ritidoma liso, acastanhado ou acinzentado. As folhas apresentam uma coloração verde-pálido, são serradas, glabras na página superior e pubescentes na inferior. As flores, que surgem de agosto a outubro, são brancas, muito aromáticas e dispostas em cachos. Os frutos são cápsulas acastanhadas muito pequenas e felpudas.

 

Como terá chegado a cletra a São Miguel e com que objetivo?

 

Tal como muitas outras plantas, a cletra foi introduzida, na nossa ilha, intencionalmente como ornamental em jardins.

 

Antes de responder à questão, regista-se que segundo Gabriel (2019) os primeiros registos da presença da cletra fora dos jardins foram efetuados por João do Amaral Franco, em 1960, no Espigão dos Bois, no Nordestinho.

 

Sobre a introdução propriamente dita, o botânico sueco Erik Sjögren (1984), escreveu o seguinte:

 

“Foi provavelmente introduzida em São Miguel há cerca de 20 a 25 anos. Alguns exemplares escapados foram encontrados em 1965 pelo autor na Região do Pico da Vara. Em 1982 encontravam-se perfeitamente estabelecidos na Laurissilva e em grandes extensões. É o mais recente exemplo nos Açores das consequências, muitas vezes inesperadas, da introdução de plantas exóticas.”

 

Embora sem qualquer documentação que confirme a data mencionada por Erik Sjögren, conheço um relato onde é afirmado que chegaram em data aproximada à referida plantas vindas da ilha da Madeira para os Serviços Florestais.

 

Apesar do afirmado acima, a verdade é que a presença da cletra a São Miguel já ocorria no século XIX. Com efeito, em 1856, numa lista das principais plantas existentes no jardim de José do Canto já constavam 4 espécies do género Clethra, entre as quais a arborea.

 

De acordo com Jardim, Sequeira e Capelo (2007) para além de ser cultivada em jardins, na ilha da Madeira, “a madeira foi no passado utilizada em embutidos, carpintaria, marcenaria, utensílios domésticos, bem como para lenha. Dos seus caules a população madeirense obtinha bordões, cabos para ferramentas agrícolas e varas para pesca.”

 

Na ilha de São Miguel, a cletra expandiu-se de tal modo que já é possível encontrá-la em quase toda a ilha, não sendo muito comum em jardins e espaços ajardinados.

 

Mas nem tudo é negativo relativamente à presença da cletra em São Miguel. Com efeito, de acordo com Jaime Ramos (2005), a cletra é uma importante fonte de alimento para o priolo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha de São Miguel, durante o inverno, pois as suas sementes são consumidas entre outubro e março.

 

25 de novembro de 2024

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Amoreiras

 


Amoreiras

 

A amoreira ou amoreira-branca (Morus alba L.) é uma planta pertencente à família Moraceae oriunda da Ásia ocidental, mas que foi introduzida em várias regiões. Além da espécie referida, há muitas outras, como a amoreira-preta (Morus nigra L.).

 

As amoreiras terão sido introduzidas na Europa por volta do século VI e em Portugal no século XV. Nos Açores, as amoreiras terão sido introduzidas nos primeiros anos do povoamento, como prova Gaspar Frutuoso (1522-1591) que no seu livro “Saudades da Terra” regista a sua presença em São Miguel em São Roque e na Povoação. O mesmo autor ao descrever a “costa da ilha de Santa Maria, pela banda do norte, das Lagoinhas até ao Castelete, donde se começou e acaba”, escreveu o seguinte: “Nas quais há terras de pão, que poderão ser sete até oito moios, com muitas árvores de fruta e figueiras e amoreiras.”

 

As várias tentativas para incrementar a indústria da seda em São Miguel, nos séculos XIX e XX, não tiveram êxito.

 

A maior terá ocorrido no século XIX através da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense que incentivou o cultivo de amoreiras. A título de exemplo, no nº1, relativo a 1848, da sua publicação mensal “O Agricultor Michaelense” foi publicada a informação de que aquela sociedade possuía seis mil pés de amoreiras de 3 anos para distribuir.

 

No século XX, o micaelense Jaime Hintze, realizou várias experiências com amoreiras nas suas propriedades, tendo só na Gorreana plantado duzentas da variedade Moretti.

 

Sobre o assunto é muito interessante a comunicação que fez, em 1938, no Primeiro Congresso Açoreano, realizado em Lisboa. Da mesma, abaixo transcreve-se um extrato:

 

«Eu mesmo fiz experiência na Gorreana, neste caso simplesmente para ver de quanto era capaz, quanto à cultura da amoreira, o terreno de São Miguel, e obtive três colheitas. A amoreira vegeta de tal forma que poderá facilmente dar quantidades de folhas desde o mês de Abril a Setembro e o bastante para que se possam criar três culturas de sirgo, o que é muito importante. A planta em três anos está já em plena produção.

 

A sericicultura, é uma indústria caseira, o que tem demonstrado várias tentativas infrutíferas quando se desejou industrializar a educação do bicho-da-seda. Até isso convém, pois espalha-se a cultura por toda a parte, indo a remuneração a todos os recantos da ilha.

 

Seria ela uma forma de contrabalançar a falta de emigração que se vem notando na Ilha de São Miguel, em face do crescimento constante da sua população. Não esqueçamos que só São Miguel tem aproximadamente e a multiplicar-se sempre, cerca de metade da população das nove ilhas.”

 

A amoreira-branca é uma árvore de folha caduca que pode alcançar uma altura de 15 metros e atingir uma longevidade próxima dos 150 anos. As suas folhas são alternas, ovadas a cordiformes, podendo ou não ser lobadas, verde-escuras e brilhantes ficando amarelas no outono. As suas flores, tanto as masculinas como as femininas, são muito pequenas e esverdeadas, não tenho qualquer interesse ornamental. Os seus frutos são de cor creme (na amoreira-negra são negros ou muito escuros)

 

A multiplicação da amoreira pode ser feita por sementeira direta, por estacas, usando as semilenhosas e por alporquia.

 

Para além do interesse ornamental da amoreira, a planta é cultivada pelos seus frutos que são comestíveis e procurados pelas aves. As fibras da casca eram usadas para o fabrico de cordas, mas a principal razão para o seu cultivo deverá ser devido ao uso das suas folhas para a alimentação do bicho-da-seda.

 

No passado a amoreira foi utilizada na tinturaria vegetal. Com efeito, era a partir dos olhos da amoreira-preta que se obtinha o preto.

 

Tal como outras plantas a amoreira figura na toponímia micaelense. São exemplos a Amoreira, na Bretanha, e as Amoreiras, na Ribeira das Tainhas.

sábado, 16 de novembro de 2024

Álamo

 


Álamo

 

O álamo ou choupo-branco (Populus alba L.) é uma planta da família Salicaceae originária do centro e sul da Europa, havendo alguns autores que levantam a hipótese de o ser também do norte de África e da Ásia Central.

 

O álamo é uma árvore caducifólia de crescimento rápido, que em média atinge uma altura de 12 a 15 metros.

 

O tronco apresenta uma casca lisa e esbranquiçada. As folhas são alternas e ovais, verdes na face superior e de cor branco-cinza na inferior, e as flores formam amentilhos, os masculinos acinzentados, com estames avermelhados e os femininos esverdeados. Os frutos são cápsulas ovoides.

 

Tudo indica que as duas espécies de álamo; a alba e a nigra, foram introduzidas, na ilha de São Miguel, no século XIX. Mas poderão ter sido antes, como terá ocorrida na ilha Terceira onde já estavam presentes no final do século XVIII.

 

Os dois irmãos Joseph e Henry Bullar, que nos anos 1838 e 1839 estavam nos Açores, ao descreverem no seu livro “Um inverno nos Açores e um verão no vale das Furnas”, Vila Franca do Campo, mencionaram a existência de uma pequena mata onde, entre outras árvores, encontraram álamos.

 

José do Canto, em 1856, já possuía várias espécies de álamos no seu jardim de Ponta Delgada e plantou-os em várias das suas vastas propriedades existentes no Porto Formoso, na Ribeirinha ou na Lagoa do Congro.

 

Nos Açores, os álamos, sobretudo a espécie nigra, foram usados para a divisão de propriedades e como sebes e os seus ramos mais finos eram utilizados para amarrações e para fazer cestos, constituindo também umas excelentes plantas ornamentais. O engenheiro agrónomo Arlindo Cabral, no nº 17do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, relativo ao primeiro semestre de 1953, sobre o assunto menciona o seguinte:

 

“A ele [Populus nigra] se associa por vezes a hortênsia, a qual preenche a parte inferior mais despida […]. Não toma grande desenvolvimento, pelo que não é usado na defesa de pomares, mas apenas nas terras empregadas m culturas arvenses. Havendo o cuidado de cortar as raízes laterais, esta espécie pouco concorre com as plantas cultivadas sob a sua protecção.”

 

Em 1932, num relatório elaborado sobre o caso florestal do distrito da Horta, no que toca à ilha do Pico pode ler-se que o álamo (Populus alba) era “empregado na ornamentação de parques e na arborização das estradas” (Costa, 1989):

 

Ambas as espécies são usadas, também, na medicina popular, apresentando as mesmas indicações terapêuticas.

 

Augusto Gomes (1992) refere que, na ilha Terceira, “os seus rebentos, em infusão de aguardente ou álcool, servem para desinfectar feridas.”

 

Corsépius (1997), para o choupo-negro, menciona as seguintes propriedades e indicações: “antissética e expectorante- bronquite; febrífuga e sudorífica – febre; digestiva; analgésica-reumatismo; vulnerária-caspa.”

 

Saraiva (2020) refere a presença de exemplares notáveis na Estrada de Circunvalação, no Porto, e na mesma cidade na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação.

 

Na Madeira, Raimundo Quintal (2022), regista a presença de álamos na Quinta Jardins do Lago, no Jardim da Universidade e no Solar dos Esmeraldos, na Lombada da Ponta do Sol.

 

Em São Miguel há álamos em várias localidades, de que destacamos o Pinhal da Paz, o Jardim de Infância, na Rua Prof. Luciano Mota Vieira, em Ponta Delgada, e a Mata-Jardim José do Canto, nas margens da Lagoa das Furnas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Nogão

 



Nogão

 

O nogão ou nogueira-preta (Juglans nigra L.) é uma árvore da família Juglandaceae oriunda do este da América do Norte.

 

De acordo com Saraiva (2020), o termo Juglans deriva de jovis glans – noz de Júpiter e o nigra, negra deve-se à cor da casca e dos frutos. O nigra, segundo um texto publicado no jornal “Agricultor Michaelense”, nº 23, de novembro de 1849, “vem-lhe de que o cerne de cor violeta, se torna preto, exposto ao ar.”

 

O nogão é uma árvore de folha caduca, de tronco cinzento perfurado que pode atingir uma altura de 15 metros e possui uma longevidade próxima dos 75 anos. As suas folhas são grandes e compostas, podendo atingir 60 cm de comprimento, sendo os folíolos de margens serradas e de cor verde baça. Cada árvore possui flores dos dois sexos, sendo as masculinas de cor verde, sendo o período de floração nos meses de abril, maio e junho. Os frutos são globosos, com um diâmetro de 4 a 5 cm.

 

O nogão foi introduzido em Inglaterra em 1629 e daí terá passado para outros países, como Portugal.

 

À nossa ilha, tudo leva a crer que terá sido introduzido em 1849, como se pode depreender do texto já mencionado publicado no órgão da Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense:

 

“Apenas tem decorrido alguns mezes depois que possuímos em S. Miguel uma destas plantas; a sua vegetação ressentiu-se da viagem: na futura primavera informaremos os nossos leitores do seu andamento: mas bom seria que outros experimentassem a sua cultura, porque ensaios desacompanhados não dão resultado em que ninguém se fie.”

 

Sobre os usos do nogão, ainda no texto que vimos citando pode-se ler o seguinte:

 

“A madeira é rigissima, não racha, pule-se bem, e não é atacada de bicho algum. Fazem-se d’ ella forro para cazas, excelentes cubos para rodas; nos tapumes das terras fincam ás vezes estacas desta madeira, que duram mais de 25 annos sem apodrecer:  e em toda a architectura civil e naval d’ella fazem grande uso. É co, a casca verde das nozes que esta nogueira produz, que se tingem estofos de lan.”

 

Para além do mencionado, regista-se que as nozes são comestíveis e também são usadas para a extração de um óleo.

 

Embora pouco usado entre nós, o nogão pode ser utilizado como planta ornamental.

 

Em Portugal continental há alguns exemplares notáveis, nomeadamente na cidade do Porto, nos arruamentos da cidade universitária, e em Ponte de Lima, no Parque da Lapa (Saraiva, 2020).

 

Na ilha da Madeira, pode-se encontrar o nogão em vários jardins, como a Quinta do Palheiro Ferreiro, a Quinta Monte Palace, a Quinta do Santo da Serra e o Campo de Educação Ambiental do Santo da Serra, este propriedade e gerido pela Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal (Quintal, 2022).

 

Na ilha de São Miguel, pode-se observar alguns exemplares, nas Furnas, no Parque Terra Nostra, e na Mata-Jardim José do Canto e na freguesia da Fajã de Cima, concelho de Ponta Delgada, no Pinhal da Paz.

 

7 de novembro de 2024

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Jacarandá

 


Jacarandá

 

O jacarandá (Jacaranda mimosifolia), pertencente à família Bignoniaceae, é uma árvore de folha caduca e de crescimento médio a rápido, oriunda da América do Sul (Argentina, Bolívia e Brasil).

 

De acordo com Saraiva (2020), “Jacaranda, deriva do nome nativo brasileiro (que em guarani significa madeira dura”. Mimosifolia, do latim, significa -com folhas semelhantes às de uma mimosa.”

 

O jacarandá, ainda de acordo com o autor citado acima, foi introduzido em Portugal, entre 1811 e 1828, pelo botânico português Félix de Avelar Brotero, quando o mesmo era diretor do Jardim Botânico da Ajuda.

 

Tal como a maioria das plantas ornamentais, é possível que o jacarandá tenha chegado aos Açores no século XIX, pela mão de algum dos membros da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, sendo o maior entusiasta e o que mais espécies introduziu José do Canto.

 

Num catálogo das plantas existentes no seu jardim de Ponta Delgada, em 1856, José do Canto enumera três espécies do género Jacaranda, entre as quais a mimosifolia. Numa publicação posterior, José do Canto refere que entre maio de 1865 e setembro de 1867, foram plantadas algumas espécies do referido género.

 

No que diz respeito ao “grande rival” de José do Canto, António Borges, sabe-se que no jardim de Ponta Delgada existiam, em 1865, várias espécies de jacarandá, entre as quais, a mimosifolia.

 

Na atualidade, na ilha da São Miguel é possível encontrar jacarandás em vários espaços ajardinados e em quintais de algumas residências. De entre os locais onde é possível observar jacarandás, destacamos os seguintes: Jardim Padre Sena Freitas, Recreio da Escola Secundária das Laranjeiras, Rua de São Paulo e Rua Maria José Borges, no Jardim António Borges, em Ponta Delgada.

 

Digna de uma visita é a cidade do Funchal, onde os jacarandás dão o ar da sua graça às avenidas Arriaga e do Infante, entre outros locais, como por exemplo o Jardim Municipal do Funchal, a Rua João de Deus, o Parque de Santa Catarina, a Quinta Jardins do Lago e o Jardim de Santa Luzia.

 

O jacarandá, que em média atinge 12 m de altura, apresenta uma longevidade que vai dos 60 a100 anos.

 

O jacarandá apresenta um tronco pequeno, com casca escura. As folhas são compostas, bipinuladas, com cerca de 16 pares de pinas, cada uma com 25 a 30 pares de folíolos pequenos. As flores do jacarandá, que surgem nos meses de maio, junho e julho, reúnem-se em panículas piramidais e apresentam uma coloração lilás azulada. O fruto que permanece muito tempo na planta é uma cápsula lenhosa de forma elipsoide.

 

A madeira do jacarandá, de cor creme, é compacta e duradoira e emite um aroma agradável, sendo muito apreciada e usada em carpintaria e marcenaria e na construção de instrumentos musicais. Os seus frutos são usados com fins decorativos.

 

É muito fácil, a propagação do jacarandá por sementes, que devem ser postas na terra logo após a frutificação, mas também é possível, embora não seja fácil, por estacas de madeira macia.

 

30 de outubro de 2024

 

T. Braga

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Cedro-do-buçaco

 


Cedro-do-buçaco

 

O cedro-do-buçaco (também conhecido como cedro-do-bussaco), ou cedro-de-goa ou cipreste-do-buçaco (Hesperocyparis lusitanica (Mill.) Bartel) é uma espécie, pertencente à família Cupressaceae, que é originária duma região que vai do México às Honduras. Hoje, pode ser encontrado, noutros continentes para além do americano, como em África, Europa, Ásia e Oceânia.

 

Em Portugal continental, o cedro-do-buçaco pode ser observado em vários locais,  nomeadamente na Mata Nacional do Buçaco, em Coimbra, e, em Lisboa, no Jardim França Borges e na Quinta das Conchas.

 

O cedro-do-buçaco, que pode atingir 30 m de altura, é uma planta resinosa.de copa piramidal, sobretudo nas árvores jovens, o seu tronco é cilíndrico e a sua casca é castanho-avermelhada.

 

De folhagem persistente, segundo Saraiva (2020) apresenta dois tipos de folhas; “as folhas dos indivíduos jovens são aciculares; as dos indivíduos maduros escamiformes, imbricadas dispostas sobre os ramos, de modo tal que o par de folhas superior está disposto em posição cruzada em relação ao inferior, com 2 a 5 mm de comprimento, de um verde um pouco acinzentado até verde glauco”.

 

Tanto o nome comum como o científico desta espécie estão envoltos em alguma confusão porque a mesma não é um cedro, mas sim um cipreste, e não é nativa de Portugal, como terá pensado o botânico francês Joseph Pitton, de Tournefort, que, em 1698, a considerou como sendo autóctone da Serra do Buçaco daí a designação lusitânica.

 

O cedro-do-buçaco chegou à ilha de São Miguel em 1799, como prova um ofício do ministro e secretário de estado D. Rodrigo de Sousa Coutinho dirigido a Nicolau Maria Raposo, datado de 6 de dezembro daquele ano, de que abaixo se publica um extrato:

 

«Estimo muito que seu filho tenha feito huma boa sementeira das Arvores de que lhe remetti as sementes, e n’esta occasião receberá V. M.* para o mesmo fim huma nova porção de Semente do Cedro de Bussaco. Recommendo-lhe muito este objecto e espero que com o seu conhecido zelo por tudo o que é de utilidade publica, se propagarão n’essa Ilha estas plantações, de que para o futuro se podem., tirar grandes utilidades.»

 

O grande introdutor de espécies vegetais nos Açores, sobretudo ornamentais, José do Canto, também apreciou a espécie tendo-a introduzido no século XIX no seu Jardim em Ponta Delgada.

 

Hoje, para além da sua presença no Jardim José do Canto, em Ponta Delgada, é possível encontrar o cedro-do-buçaco noutros jardins e espaços ajardinados como o Jardim António Borges, em Ponta Delgada, ou o Parque Pedagógico Maria das Mercês, no Pico da Pedra.

 

O cedro-do-buçaco, para além do uso como planta ornamental, pode ser utilizado para formar barreiras para proteção dos efeitos nefastos do vento. Também pode ser usado em marcenaria, para a obtenção de lenha de boa qualidade e para a produção de celulose.

 

26 de outubro de 2024